quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Sobre o orgulho feminino e a necessidade de certos desconfortos

[Editado em 21-01-16]

Eu cresci aprendendo que deveria contestar quando me sentisse injustiçada, que poderia gritar e sair correndo para defender-me de qualquer opressão. Principalmente dos sujeitinhos metidos a machões. Isso me salvou de traumas tenebrosos. Tentei exercitar, sempre que tinha consciência da situação, essa autodefesa. Tais mecanismos se naturalizaram em mim.

Mas tinha presente, com constância, que fui esculpida e esculpi-me frágil: lenta demais, prendada de menos, displicente com a enganosa ordem natural das coisas, desatenta com os ritmos dominantes, insuficientemente cuidadosa com o corpo (e de acordo com os olhos mais amorosos). Compreendi que havia uma espécie de escala invisível e indizível das virtudes femininas e nessa escala eu tinha ficado para trás. O contexto piorava pois, quanto mais eu tentava ganhar “pontos de virtude”, mais mal-estar isso causava-me, sem que eu entendesse profundamente o porquê.

No início lentamente, algumas leituras realizadas e situações na qual me colocava tornaram possível uma mudança de perspectivas: a necessidade de apagar o modelo de comportamento e de corpo que a convivência com os outros desenhou em minha mente. E de construir um novo objetivo que me trouxesse satisfação genuína, usando, sempre que preciso, uma borracha imaginária depois que me sentisse marcada por olhares intrusos.

Esse processo passou pela positivação da minha identidade como uma das identidades possíveis e até, em parte, desejáveis, na diversidade que está por trás do que é ser mulher. E também pela resistência – sempre que possível – ativa a todo tipo de comportamento opressor. Disso decorre uma característica não menos importante dessa transformação: o corte ponderado e contínuo de tudo que reforçasse minhas fragilidades.

Aprendi a amar minhas idiossincrasias e desconfiar de favores cavalheirescos. Com isso, surgiram novas atitudes. Uma das coisas mais bobas que faz com que eu me sinta empoderada é carregar peso, quando é possível (mesmo que, vez ou outra, custe uma dor nos ombros). Procuro bagunçar as aparentes divisões de gênero: assumir minha parte nos gastos financeiros; abrir, para mim mesma, a porta do carro ao sair (como carona); andar sozinha à noite – com as devidas precauções; fazer questão de tentar me defender autonomamente de grosserias, mesmo diante de homens protetores. Procuro dispensar o cavalheirismo tradicional (e ter consciência dos meus privilégios de classe média bem escolarizada, que possibilitam algumas dessas práticas) para que não se tornem hábitos e me acomodem.

Eu sei que minhas descrições podem ser consideradas só uma fagulha da grande e bela chama  que é o feminismo. Das grandes transformações estruturais que ele suscita. O que não sei se seria realmente construtivo para o movimento que eu me considerasse uma representante dele: comparativamente, pouco li de seus cânones, tenho insegurança se minha formação é adequada, se vou deturpá-lo. Talvez fique um pouco feliz além do que deveria quando percebo um homem desconstruindo o próprio machismo (e pelas meninas que tiveram pais presentes e que não lhes sufocam o empoderamento). Tenho que aprofundar minhas práticas de sororidade (apesar de há tempos não ter tolerância a xingamentos machistas ou lesbofóbicos dirigidos a outras, por maiores que tenham sido ou até venham a ser as divergências com algumas mulheres). 

Feminista, pró-feminista ou qualquer outra classificação que possa ser adequada aos meus posicionamentos, parto do pressuposto da profunda gratidão para com aquelas primeiras loucas anônimas que começaram a gritar com os machos sobre seus desejos de estudar, trabalhar, gozar, gargalhar, protagonizar e desobedecer. E foi através desse percurso que a vida de suas descendentes ficou lentamente menos dolorida, mais livre e feliz. E é esse legado que quero perpetuar.