[Editado em 21-01-16]
Eu cresci aprendendo que deveria contestar quando me sentisse injustiçada, que poderia gritar e sair correndo para defender-me de qualquer opressão. Principalmente dos sujeitinhos metidos a machões. Isso me salvou de traumas tenebrosos. Tentei exercitar, sempre que tinha consciência da situação, essa autodefesa. Tais mecanismos se naturalizaram em mim.
Mas tinha presente, com
constância, que fui esculpida e esculpi-me frágil: lenta demais,
prendada de menos, displicente com a enganosa ordem natural das
coisas, desatenta com os ritmos dominantes, insuficientemente
cuidadosa com o corpo (e de acordo com os olhos mais amorosos).
Compreendi que havia uma espécie de escala invisível e indizível
das virtudes femininas e nessa escala eu tinha ficado para trás. O
contexto piorava pois, quanto mais eu tentava ganhar “pontos de
virtude”, mais mal-estar isso causava-me, sem que eu entendesse
profundamente o porquê.
No início lentamente,
algumas leituras realizadas e situações na qual me colocava
tornaram possível uma mudança de perspectivas: a necessidade de
apagar o modelo de comportamento e de corpo que a convivência com os
outros desenhou em minha mente. E de construir um novo objetivo que
me trouxesse satisfação genuína, usando, sempre que preciso, uma
borracha imaginária depois que me sentisse marcada por olhares
intrusos.
Esse processo passou
pela positivação da minha identidade como uma das identidades
possíveis e até, em parte, desejáveis, na diversidade que está
por trás do que é ser mulher. E também pela resistência –
sempre que possível – ativa a todo tipo de comportamento opressor.
Disso decorre uma característica não menos importante dessa
transformação: o corte ponderado e contínuo de tudo que reforçasse
minhas fragilidades.
Aprendi a amar minhas
idiossincrasias e desconfiar de favores cavalheirescos. Com isso,
surgiram novas atitudes. Uma das coisas mais bobas que faz com que eu
me sinta empoderada é carregar peso, quando é possível (mesmo
que, vez ou outra, custe uma dor nos ombros). Procuro bagunçar as
aparentes divisões de gênero: assumir minha parte nos gastos
financeiros; abrir, para mim mesma, a porta do carro ao sair (como
carona); andar sozinha à
noite – com as devidas precauções; fazer questão de tentar me
defender autonomamente de grosserias, mesmo diante de homens
protetores. Procuro dispensar o cavalheirismo tradicional (e ter
consciência dos meus privilégios de classe média bem escolarizada,
que possibilitam algumas dessas práticas) para que não se tornem
hábitos e me acomodem.
Eu sei que minhas
descrições podem ser consideradas só uma fagulha da
grande e bela chama que é o feminismo. Das grandes transformações
estruturais que ele suscita. O que não sei se seria realmente
construtivo para o movimento que eu me considerasse uma representante
dele: comparativamente, pouco li de seus cânones, tenho insegurança
se minha formação é adequada, se vou deturpá-lo. Talvez fique um
pouco feliz além do que deveria quando percebo um homem
desconstruindo o próprio machismo (e pelas meninas que tiveram pais
presentes e que não lhes sufocam o empoderamento). Tenho que
aprofundar minhas práticas de sororidade (apesar de há tempos não
ter tolerância a xingamentos machistas ou lesbofóbicos dirigidos a
outras, por maiores que tenham sido ou até venham a ser as
divergências com algumas mulheres).
Feminista,
pró-feminista ou qualquer outra classificação que possa ser
adequada aos meus posicionamentos, parto do pressuposto da profunda
gratidão para com aquelas primeiras loucas anônimas que começaram
a gritar com os machos sobre seus desejos de estudar, trabalhar,
gozar, gargalhar, protagonizar e desobedecer. E foi através desse
percurso que a vida de suas descendentes ficou lentamente menos
dolorida, mais livre e feliz. E é esse legado que quero perpetuar.