Creio que se pode diferenciar dois tipos de confiança nas relações humanas. As duas podem estar presentes em diferentes graus, mas em muitos momentos são distinguíveis. Uma é típicas das crianças: a crença naquilo que te proporciona uma sensação de abrigo e proteção, que ultrapassa ou escapa de um racionalização, pelo menos em algumas de suas bases ou no mais importante. É a confiança que se detém nas nossas próprias lacunas de sentimentos, pensamentos e no encantamento pelo outro. Perigosamente recheada de excesso de expectativas e impressões superficiais.
Outro tipo de confiança é aquela que se estabelece (ou pode se estabelecer) com o processo de experiência de vida enquanto caminho de maturidade, como um compartilhamento entre duas pessoas. Podem ser objetivos, afetos, ideiais e pontos de vista. É uma confiança que se estabelece em um grau razoável de racionalizações e comunhão de sentimentos. Nem que seja um momento ocasional e passageiro. Geralmente, a confiança é baseada em uma certa previsibilidade, mas ela deve se deter a isso? Bom, volta e meia, ela escapa a essas estruturas: quebram-se as malditas expectativas. Isso pode ajudar a criar decepções, nervosismo, frustração, paranóia, desconfiança. E esse é o fruto de relações que sobrevivem no imediatismo, na falta de olhar de novo para a situação, de enxergar além da imagem e das primeras sensações.
E então, você resolve tentar uma confiança baseada na liberdade, na continua negociação, no ouvir constante, em não ter medo das transformações e rever continuamente os próprios conceitos sobre o mundo. Em saber que o ser humano está sempre em construção e do processo de crescimento restam incoerência, fraquezas, falhas. Em ter que lidar constantemente com coisas que teu olho não pode captar. No fato de que as pessoas podem tomar atitudes com as quais tu não concordas, e mesmo assim continuar compartilhando coisas muito bonitas contigo. Na percepção de que um afeto profundo aceita o outro como o mistério e a incompletude que ele é e que ele está; e se o outro quiser mudar pensando em nós, é algo que deve ser digerido pela consciência e pelo aprendizado dele e não pela nossa constante cobrança, expectativa ou intolerância. De qualquer modo há uma constante necessidade de saltos no escuro.
Sem nenhuma dessas confianças sendo praticada, as coisas não florescem. A vida é murcha e pesada. Quando essa confiança se desfaz, dói. E se a confiança madura não existe, melhor seria voltar a ser criança, apegar-se a algum deus bondoso e onipotente, ou então viver anestesiando a consciência até que o tempo se encarregue de tornar isso um automatismo. Para florescer, para fazer valer, é preciso ver beleza verdadeira nas coisas, e saber compartilhá-la, tanto quanto possível, com proximidade, brilho e calor.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
sábado, 26 de maio de 2012
Estados antipoéticos
Hoje estou pedregulho
Dura e incômoda superfície
Restos espalhados de orgulho
Últimas energias
Gastas em ironias
São resistências
Pedaços partidos
De sapiência
Lembrança do medo
Que consome a leveza
Infla pequenas
E torpes penúrias
Esconde os sorrisos
E torna perigo
O que era pra ser
Um grande prazer
Um passado etéreo
Insiste em se manter
E nisso não há mistério
Permanece esse cheiro eterno
De tristeza
E julgamento
Por todo o ar
Vibra o caos
E mortificada
Por bizarro espetáculo
Sou mineral
Sem lágrima e sal
E, abaixo de muitas camadas
Suspiro exasperada
Sedenta daquela poesia
Da pura fruição dos sentidos
Ah, menina!
De peito aberto
Tudo que olhas
É tão mais terno
E toda implicância
Um vão inferno
Mas qualquer tortura dói mais
Inesperado adeus à paz
E o silêncio jaz
No indizível
Um triste vácuo
De sentidos
Inércia do simbólico
E dos meus sorrisos
Dura e incômoda superfície
Restos espalhados de orgulho
Últimas energias
Gastas em ironias
São resistências
Pedaços partidos
De sapiência
Lembrança do medo
Que consome a leveza
Infla pequenas
E torpes penúrias
Esconde os sorrisos
E torna perigo
O que era pra ser
Um grande prazer
Um passado etéreo
Insiste em se manter
E nisso não há mistério
Permanece esse cheiro eterno
De tristeza
E julgamento
Por todo o ar
Vibra o caos
E mortificada
Por bizarro espetáculo
Sou mineral
Sem lágrima e sal
E, abaixo de muitas camadas
Suspiro exasperada
Sedenta daquela poesia
Da pura fruição dos sentidos
Ah, menina!
De peito aberto
Tudo que olhas
É tão mais terno
E toda implicância
Um vão inferno
Mas qualquer tortura dói mais
Inesperado adeus à paz
E o silêncio jaz
No indizível
Um triste vácuo
De sentidos
Inércia do simbólico
E dos meus sorrisos
sábado, 12 de maio de 2012
Impermanências
Do outro lado do espelho
Dá pra ver
Que toda ilusão solitária
Tem muito de desespero
Não queiras ir às alturas
Como se a vida
Só precisasse de asas
E a euforia bastasse
Como boa companhia
E se não há verdade
Compartilha tuas loucuras
Faz da tua miragem
Um lugar feliz
Dança, tropeça e chora
Frua toda beleza e toda dor
Antes que o deserto reapareça
E a vida escape entre os teus dedos
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