segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pequeno exercício de indefinição

Sou um bicho arisco. Arredia e idiossincrática. Dificilmente satisfeita, às vezes obsessivamente analítica. Facilmente rendida a aventuras e sorrisos lindos, nem que seja preciso uma persistência praticamente inoxidável para arrancá-los. Dizem que meu olhar é doce, mas não me preocupo em ser boazinha. Eu desejo mesmo é tentar contribuir para dar algum sentido coerente e bonito à palavra humanidade.

domingo, 21 de outubro de 2012

Um tom de ironia

Era estranho ela não saber se tinha ido longe demais ou dado passos muito curtos. Se devia ter mudado mais ou ido com mais calma. A vertigem de uma vida sem nortes, como uma bússola louca que nunca para. Árida ironia que a poeira da estrada escondia nas entrelinhas.
Era madrugada e ela estava em um hotel de uma cidade desconhecida. O dinheiro acabando. Longe de tudo e de todos. Ou será que não? Alguns dos pequenos mistérios que cercavam sua vida poderiam fazer com que tropeçasse em coisas familiares sem ao menos notar, ou talvez notar tarde demais.
Um vazio tomou conta dela ao olhar a estrada iluminada pelas luzes da madrugada. Uma estranha sensação que tornava os lamentos inúteis e os motivos pra ser feliz mais fáceis.


domingo, 30 de setembro de 2012

Latências

A rotina é uma quimera
Que me engoliu
Num quarto claustrofóbico
De uma cidade asfixiante

E quem fui é um espectro
Conotação ilusória
De sorrisos fortuitos

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um poema para os desencantos contra os quais ainda teimo

Ando assim meio cativa
Das intropecções profundas
Sem querer o mundo passa ao largo
O desencanto é meu clichê
Purgatório particular
Frio e oco

E tento ficar a salvo
De sentimentos complexos
Abraços rasos e fortuitos
Mas sempre foi vã a busca
Para que o sorriso esqueça
Que a vida -  na inércia -
Do sono sem sonhos
É só ilusão

Só que por hora ando leve
Como quem ainda se atreve
A sorrir assim de lado
Mas a alma é líquida
E as dúvidas
São pequenos pedregulhos
Esculpidos por correntezas

Através de caminhos tortos o tempo flui


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Rotas complicadas


Eu nem sempre vou 
Pelos caminhos que quero
Aqueles que fazem
O peito arder

Deixo o instante falar
Mas ele tem a consistência 
De uma bolha-de-sabão
Translúcida e sem direção

Incontestavelmente
Eu prefiro as rotas complicadas
Labirintos que escondem 
Sorrisos alucinógenos
E por breves instantes que se reiteram
Parece, de novo e de novo
Que só a mais terna loucura faz sentido

domingo, 15 de julho de 2012

Labirinto

Eu não estaria assim tão errada
Se estivesse absurdamente apaixonada
Mas nesse percurso em corda bamba
É preciso estrangular os instintos
Porque, depois, como sair do labirinto?

domingo, 8 de julho de 2012

Deméter

Eu tenho um mundinho cor-de-rosa pra te oferecer
Na ponta da minha língua
Um mundo de falas insossas e geladas
Paisagens pálidas
Conto de fadas bizarro e oco

Como se nunca tivesse provado da sombria romã
Explosão de cores
Com a qual tanto me deliciei
Insanamente feliz com minha insuficiência
Eu escolhi ser dúbia e oblíqua
Um jogo de sombras
Para escapar
Da tua proteção asfixiante
Gosto de medo
Inferno eterno
Deixas o mundo tão feio

Desejo brincar com o perigo
E eu só quero abrigo
Se for sem perguntas
Inventa-te contente para mim, sim?




domingo, 17 de junho de 2012

Das poesias por hora impossíveis

Na solidão noturna ela se permitia pensar no quanto achava cruel o mundo da sedução. Não queria muito. Nenhum tipo de salvação nos braços de alguém. Mas às vezes ela se perguntava se tudo não passava de um jogo de poder. E isso sempre a assustou. Mesmo que tivesse armas para ganhar (e não eram muitas), sabia que não iria querer usá-las, por medo de acabar gostando de pequenas tiranias. 
Ela queria poesia sem poder. A poesia das pernas entrelaçadas por alguns momentos. Dos cheiros e dos sons. Dos belos acordes descobertos sem querer. Das coisas simples. De se inventar feliz, para poder criar uma nova pessoa dos cacos do passado. E se fosse insanidade da parte dela? Pretensão? Ilusão?
O pior de tudo era saber que não teria resposta: só ouvir o silêncio e o vazio de seus pensamentos.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Confianças

Creio que se pode diferenciar dois tipos de confiança nas relações humanas. As duas podem estar presentes em diferentes graus, mas em muitos momentos são distinguíveis. Uma é típicas das crianças: a crença naquilo que te proporciona uma sensação de abrigo e proteção, que ultrapassa ou escapa de um racionalização, pelo menos em algumas de suas bases ou no mais importante. É a confiança que se detém nas nossas próprias lacunas de sentimentos, pensamentos e no encantamento pelo outro. Perigosamente recheada de excesso de expectativas e impressões superficiais.
Outro tipo de confiança é aquela que se estabelece (ou pode se estabelecer) com o processo de experiência de vida enquanto caminho de maturidade, como um compartilhamento entre duas pessoas. Podem ser objetivos, afetos, ideiais e pontos de vista. É uma confiança que se estabelece em um grau razoável de racionalizações e comunhão de sentimentos. Nem que seja um momento ocasional e passageiro. Geralmente, a confiança é baseada em uma certa previsibilidade, mas ela deve se deter a isso? Bom, volta e meia, ela escapa a essas estruturas: quebram-se as malditas expectativas. Isso pode ajudar a criar decepções, nervosismo, frustração, paranóia, desconfiança. E esse é o fruto de relações que sobrevivem no imediatismo, na falta de olhar de novo para a situação, de enxergar além da imagem e das primeras sensações.
E então, você resolve tentar uma confiança baseada na liberdade, na continua negociação, no ouvir constante, em não ter medo das transformações e rever continuamente os próprios conceitos sobre o mundo. Em saber que o ser humano está sempre em construção e do processo de crescimento restam incoerência, fraquezas, falhas. Em ter que lidar constantemente com coisas que teu olho não pode captar. No fato de que as pessoas podem tomar atitudes com as quais tu não concordas, e mesmo assim continuar compartilhando coisas muito bonitas contigo. Na percepção de que um afeto profundo aceita o outro como o mistério e a incompletude que ele é e que ele está; e se o outro quiser mudar pensando em nós, é algo que deve ser digerido pela consciência e pelo aprendizado dele e não pela nossa constante cobrança, expectativa ou intolerância. De qualquer modo há uma constante necessidade de saltos no escuro.
Sem nenhuma dessas confianças sendo praticada, as coisas não florescem. A vida é murcha e pesada. Quando essa confiança se desfaz, dói. E se a confiança madura não existe, melhor seria voltar a ser criança, apegar-se a algum deus bondoso e onipotente, ou então viver anestesiando a consciência até que o tempo se encarregue de tornar isso um automatismo. Para florescer, para fazer valer, é preciso ver beleza verdadeira nas coisas, e saber compartilhá-la, tanto quanto possível, com proximidade, brilho e calor.

sábado, 26 de maio de 2012

Estados antipoéticos

Hoje estou pedregulho
Dura e incômoda superfície
Restos espalhados de orgulho
Últimas energias
Gastas em ironias
São resistências
Pedaços partidos
De sapiência

Lembrança do medo
Que consome a leveza
Infla pequenas
E torpes penúrias
Esconde os sorrisos
E torna perigo
O que era pra ser
Um grande prazer

Um passado etéreo
Insiste em se manter
E nisso não há mistério
Permanece esse cheiro eterno
De tristeza
E julgamento
Por todo o ar
Vibra o caos
E mortificada
Por bizarro espetáculo
Sou mineral
Sem lágrima e sal
E, abaixo de muitas camadas
Suspiro exasperada
Sedenta daquela poesia
Da pura fruição dos sentidos
Ah, menina!
De peito aberto
Tudo que olhas
É tão mais terno
E toda implicância
Um vão inferno
Mas qualquer tortura dói mais
Inesperado adeus à paz
E o silêncio jaz
No indizível

Um triste vácuo
De sentidos
Inércia do simbólico
E dos meus sorrisos

sábado, 12 de maio de 2012

Impermanências


Do outro lado do espelho
Dá pra ver
Que toda ilusão solitária
Tem muito de desespero

Não queiras ir às alturas
Como se a vida
Só precisasse de asas
E a euforia bastasse
Como boa companhia

E se não há verdade
Compartilha tuas loucuras
Faz da tua miragem
Um lugar feliz
Dança, tropeça e chora
Frua toda beleza e toda dor
Antes que o deserto reapareça
E a vida escape entre os teus dedos

sábado, 7 de abril de 2012

Fome

É da falta que renasce o desejo
Fome de delícias
Insaciadas por entre os dedos

E a alma impertinente
Busca a iguaria
Desliza a língua
Tão ternamente
Em doce uva
Morde de leve
Os mais ternos sabores
Prepara então uma bebida quente
E em cuidadosos movimentos
Acalma a sede
Tranquiliza a mente
Breves momentos
Derramam êxtase
És um banquete

Resta-me a espera
Aumenta a falta
Segue o apetite

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Breves inquietações sobre o que governa o mundo

“Os decretos do ministro da Economia se referem aos tipos de câmbio, ao regime impositivo, à política de preços? Porque não mencionam nunca coisas como a vida e a morte e o destino? É mais sábio o que decifra as linhas da mão ou o que saber ler o que dizem, sem dizer, esses decretos?” (Eduardo Galeano)

Eu olhava a janela de todas as casas enquanto caminhava. Procurava as que estivessem abertas e parecessem amistosas. Surpreendi-me com o olhar da senhora baixinha de cabelos grisalhos e compridos.

- Boa tarde! Tá vendendo alguma coisa, moça? – sorriu, enquanto abria um velho portão de madeira da casa.

- Boa tarde! Não, eu tô trabalhando com questionários sobre programas sociais.

Apresentei-me e expliquei detalhes. Em alguns minutos consegui apagar o medo dela de ser mais uma aposentada a sofrer algum golpe financeiro. Tenho que ponderar que o olhar de entusiasmo da senhora cedeu um pouco, mas a gentileza ficou intocada. Ela aceitou receber-me e começou a falar sobre de que maneira o que ela e a filha que morava com ela ganhavam só dava pra pagar a comida, o dízimo e, com muito custo, os remédios que não conseguia no posto. Em retribuição à atenção que recebia, olhei para a senhora como se não tivesse ouvido a mesma história centenas de vezes, ao mesmo tempo em que começava a subir degraus íngremes de paralelepípedos toscamente lapidados.

- Eu achei que você tivesse vendendo CD’s, fia! – disse rindo a senhora, enquanto se esforçava para subir até a própria casa.

Ri, sem entender, dizendo baixo:

- Nãoooo...

- Sabe, fia, que tem uns CD’s maravilhosos falando de Jesus? Eu só não fui no culto hoje porque ninguém veio me buscá. Deus tem me abençoado muito ultimamente.

E como naquele dia eu estava sedenta pela gentileza e pela humildade que encontrava naquela senhora, saiu um tímido “Amém” a essa e a todas as outras esperanças que ela me confessava ter.

- Tem que lê a Bíblia tooodos dia! Se as pessoa lesse a Bíblia, o mundo não tava assim.

Eu balancei a cabeça positivamente, e lancei para ela um sorriso adocicado pela culpa de não estar sendo sincera com quem me tratava tão bem. Não ergui meus olhos. Lembrei que estava em algum lugar da minha estante o livro grosso de papel frágil, com uma proteção cinza de couro. Ele já não me dizia as mesmas coisas, mas um pedaço das minhas angústias de adolescente estava guardado no fecho lateral dele sobre a forma de papéis amarelados cobertos de letras pontudas.

No final dos degraus avistei, na varanda do casebre, no alto da colina, a filha da senhora, que, antes de me ver, estava concentrada em terminar uma peça de tricô. A angústia não saia do olhar daquela mulher madura nem quando ela sorria. Eu olhei para aquele ambiente simples. Tinha um pedaço de nostalgia como quando eu estava em férias num certo sítio aos oito ou nove anos: às vezes ia espiar e assustar de leve os bichos do galinheiro da vó para achar graça no dia.

Depois de sentar e me apresentar à filha da senhora, comecei a entrevista. As minhas perguntas sobre as condições de vida daquelas duas mulheres suscitava respostas familiares. Eu não me lembro de um trabalhador de fábrica que conheci resistir a mais de quinze anos de rotina sem arrebentar as costas, as pernas ou a capacidade do cérebro produzir uma quantidade satisfatória de serotonina. Ou torrar os neurônios e o humor para pagar o aluguel. Vive-se para esmagar as vértebras e dissolver as angústias em soníferos quando tudo dá errado.

Depois das perguntas sobre as condições de vida delas, as últimas questões diziam respeito aos programas sociais. As duas começaram a falar sobre o quanto a vida havia melhorado nos últimos tempos. Era só preencher alguns quadrinhos, marcar uma dúzia de “xis” e eu havia terminado meu dever.

- Sabe, fia, que eu tô orando muito para que o Lula fique curado do câncer! Ele é um homê muito bom! Lá na igreja a gente ora, aqui em casa a gente ora...

- Ele fez bem pra tanta gente! – disse a filha.

- É, ele fez bem pra muita gente. Tirô muita gente da fome. E tu vê, o Collor, que só fez mal, continua lá! Como pode?

- O Collor desgraçô a vida de muita gente.

- Ele fez muito mal pra minha fia. Aquele homê vai pro inferno.

Eu pensei que alguns ateus orariam fervorosamente para que Deus existisse e o desejo daquela senhora se realizasse.

- Por causa dele, a fábrica onde eu trabalhava quebrô. Os dono sumiram tudo no dia seguinte. Não tinha emprego em lugar nenhum e eu comecei a passá fome. Eu tive que dá as minhas duas filha pra minha irmã pra elas poderem comê, depois ela não queria me devolve as menina, nós brigamo e eu não falo com ela até hoje. Aquele homê desgraçô a vida de muita gente!

Depois de ouvir a filha, a senhora dirigiu o olhar para mim e perguntou:

- Por que esse homê que fez mal pra tanta gente continua lá, fia? Por que ele tá no governo? Como o Lula aceitava uma coisa dessa, fia?

Por que as coisas foram feitas de maneira que uma pessoa pode ter poder sobre o destino de milhões? Pensei nas teorias sociais e políticas que havia estudado; que para manter o poder era preciso fazer concessões. Pensei na análise dos comentaristas políticos que havia lido. Também nas minhas utopias. Nas minhas crenças sobre a natureza humana, tão complexa, incoerente e ambígua.

Mas quem era eu pra tentar arranhar o alívio que as orações, os calmantes e Deus proporcionavam em certas horas da vida daquela senhora? E se tentasse só dizer algumas palavras simples sobre o assunto, quais eu poderia usar? Ainda havia em mim uma leve lembrança de que o mundo era mais seguro quando colocava-se a cabeça no travesseiro e dormia-se com a crença de que havia seres humanos completamente bons.

Só saiu um “Pois é...” como resposta.

Como estava no final do meu expediente, eu mudei de assunto explicando pela última vez que direitos as duas poderiam ter, de acordo com salário que ganhavam. Recomendei que procurassem ajuda caso passassem necessidades muito sérias. As duas ficaram agradecidas.

A senhora grisalha acompanhou meu trajeto de descida até o portão de madeira. A filha retornou a atenção para o tricô.

- Sabe, Deus sempre tem nos ajudado!

- Que bom!

- Vai pra casa, menina?

- Sim, está na minha hora... e depois vou pra faculdade...

- Que bom! Estudá faz bem!

- É, eu gosto bastante!

Ela abriu o portão e disse:

- Brigada, fia! Deus lhe abençoe!

Eu respondi “Amém” com uma última e fraca gota de fé. Tentei acreditar em um Deus quieto e excêntrico que olhasse para o mundo e dissesse: “Um dia vocês vão aprender a ser livres”. Talvez nesse dia Ele vibre dizendo que nós conseguimos, quando as pessoas descobrirem que há outras maneiras de governar esse mundo. Então decretos, taxas de juros, mísseis de precisão, lei da oferta e da procura, políticas de preço, Ferraris vermelhas, regimes de previdência, fast-food, salários, Bancos Centrais e produção em larga escala tornem-se só lembranças de como o mundo era esquizofrênico, mesmo que tudo parecesse tão racional.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Desarmonia

A beleza escapou entre seus dedos
Como se fosse uma borboleta claustrofóbica
Semeadora de tempestades
Caos silencioso
Tudo vazio e torto

A simetria do outro é sempre melhor
E não há um ombro para descansar
A alma se apaga
No fim, a poesia é só uma alucinação

Tropeça na pirueta
Sozinha na sala
Seus passos sem sincronia

Faz versos sobre a ausência
Abstraindo ruídos e lágrimas
E suspira, esperando pelo universo em harmonia

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Flaneurs

Sou cativada pelos passeios noturnos
Povoados de sorrisos furtivos e ventos refrescantes

Nenhuma placa ou sinal nos limita
E nossos pés doloridos nos fazem livres
Pelo menos por esta noite

Tenho saudade dos passeios noturnos
Até de quando procurei desesperadamente
As palavras certas esquecidas no meio-fio das calçadas

Fica tudo mais simples quando o Sol não ilumina os corpos
Tudo vira harmonia quando a iluminação artificial
Capta o brilho dos olhares
Até as sombras tornarem tudo um mistério

Eu poderia viver para as noites sem teto
Até os mosquitos seriam sinfonia aos ouvidos
E mesmo umas poucas horas de sono
Já arrancariam um sorriso pela manhã

Digo-lhes, pois, que é antes do nascer do Sol
Que se esconde a arte de ficar contente
Com os contornos mais verdadeiros da vida