“Os decretos do ministro da Economia se referem aos tipos de câmbio, ao regime impositivo, à política de preços? Porque não mencionam nunca coisas como a vida e a morte e o destino? É mais sábio o que decifra as linhas da mão ou o que saber ler o que dizem, sem dizer, esses decretos?” (Eduardo Galeano)
Eu olhava a janela de todas as casas enquanto caminhava. Procurava as que estivessem abertas e parecessem amistosas. Surpreendi-me com o olhar da senhora baixinha de cabelos grisalhos e compridos.
- Boa tarde! Tá vendendo alguma coisa, moça? – sorriu, enquanto abria um velho portão de madeira da casa.
- Boa tarde! Não, eu tô trabalhando com questionários sobre programas sociais.
Apresentei-me e expliquei detalhes. Em alguns minutos consegui apagar o medo dela de ser mais uma aposentada a sofrer algum golpe financeiro. Tenho que ponderar que o olhar de entusiasmo da senhora cedeu um pouco, mas a gentileza ficou intocada. Ela aceitou receber-me e começou a falar sobre de que maneira o que ela e a filha que morava com ela ganhavam só dava pra pagar a comida, o dízimo e, com muito custo, os remédios que não conseguia no posto. Em retribuição à atenção que recebia, olhei para a senhora como se não tivesse ouvido a mesma história centenas de vezes, ao mesmo tempo em que começava a subir degraus íngremes de paralelepípedos toscamente lapidados.
- Eu achei que você tivesse vendendo CD’s, fia! – disse rindo a senhora, enquanto se esforçava para subir até a própria casa.
Ri, sem entender, dizendo baixo:
- Nãoooo...
- Sabe, fia, que tem uns CD’s maravilhosos falando de Jesus? Eu só não fui no culto hoje porque ninguém veio me buscá. Deus tem me abençoado muito ultimamente.
E como naquele dia eu estava sedenta pela gentileza e pela humildade que encontrava naquela senhora, saiu um tímido “Amém” a essa e a todas as outras esperanças que ela me confessava ter.
- Tem que lê a Bíblia tooodos dia! Se as pessoa lesse a Bíblia, o mundo não tava assim.
Eu balancei a cabeça positivamente, e lancei para ela um sorriso adocicado pela culpa de não estar sendo sincera com quem me tratava tão bem. Não ergui meus olhos. Lembrei que estava em algum lugar da minha estante o livro grosso de papel frágil, com uma proteção cinza de couro. Ele já não me dizia as mesmas coisas, mas um pedaço das minhas angústias de adolescente estava guardado no fecho lateral dele sobre a forma de papéis amarelados cobertos de letras pontudas.
No final dos degraus avistei, na varanda do casebre, no alto da colina, a filha da senhora, que, antes de me ver, estava concentrada em terminar uma peça de tricô. A angústia não saia do olhar daquela mulher madura nem quando ela sorria. Eu olhei para aquele ambiente simples. Tinha um pedaço de nostalgia como quando eu estava em férias num certo sítio aos oito ou nove anos: às vezes ia espiar e assustar de leve os bichos do galinheiro da vó para achar graça no dia.
Depois de sentar e me apresentar à filha da senhora, comecei a entrevista. As minhas perguntas sobre as condições de vida daquelas duas mulheres suscitava respostas familiares. Eu não me lembro de um trabalhador de fábrica que conheci resistir a mais de quinze anos de rotina sem arrebentar as costas, as pernas ou a capacidade do cérebro produzir uma quantidade satisfatória de serotonina. Ou torrar os neurônios e o humor para pagar o aluguel. Vive-se para esmagar as vértebras e dissolver as angústias em soníferos quando tudo dá errado.
Depois das perguntas sobre as condições de vida delas, as últimas questões diziam respeito aos programas sociais. As duas começaram a falar sobre o quanto a vida havia melhorado nos últimos tempos. Era só preencher alguns quadrinhos, marcar uma dúzia de “xis” e eu havia terminado meu dever.
- Sabe, fia, que eu tô orando muito para que o Lula fique curado do câncer! Ele é um homê muito bom! Lá na igreja a gente ora, aqui em casa a gente ora...
- Ele fez bem pra tanta gente! – disse a filha.
- É, ele fez bem pra muita gente. Tirô muita gente da fome. E tu vê, o Collor, que só fez mal, continua lá! Como pode?
- O Collor desgraçô a vida de muita gente.
- Ele fez muito mal pra minha fia. Aquele homê vai pro inferno.
Eu pensei que alguns ateus orariam fervorosamente para que Deus existisse e o desejo daquela senhora se realizasse.
- Por causa dele, a fábrica onde eu trabalhava quebrô. Os dono sumiram tudo no dia seguinte. Não tinha emprego em lugar nenhum e eu comecei a passá fome. Eu tive que dá as minhas duas filha pra minha irmã pra elas poderem comê, depois ela não queria me devolve as menina, nós brigamo e eu não falo com ela até hoje. Aquele homê desgraçô a vida de muita gente!
Depois de ouvir a filha, a senhora dirigiu o olhar para mim e perguntou:
- Por que esse homê que fez mal pra tanta gente continua lá, fia? Por que ele tá no governo? Como o Lula aceitava uma coisa dessa, fia?
Por que as coisas foram feitas de maneira que uma pessoa pode ter poder sobre o destino de milhões? Pensei nas teorias sociais e políticas que havia estudado; que para manter o poder era preciso fazer concessões. Pensei na análise dos comentaristas políticos que havia lido. Também nas minhas utopias. Nas minhas crenças sobre a natureza humana, tão complexa, incoerente e ambígua.
Mas quem era eu pra tentar arranhar o alívio que as orações, os calmantes e Deus proporcionavam em certas horas da vida daquela senhora? E se tentasse só dizer algumas palavras simples sobre o assunto, quais eu poderia usar? Ainda havia em mim uma leve lembrança de que o mundo era mais seguro quando colocava-se a cabeça no travesseiro e dormia-se com a crença de que havia seres humanos completamente bons.
Só saiu um “Pois é...” como resposta.
Como estava no final do meu expediente, eu mudei de assunto explicando pela última vez que direitos as duas poderiam ter, de acordo com salário que ganhavam. Recomendei que procurassem ajuda caso passassem necessidades muito sérias. As duas ficaram agradecidas.
A senhora grisalha acompanhou meu trajeto de descida até o portão de madeira. A filha retornou a atenção para o tricô.
- Sabe, Deus sempre tem nos ajudado!
- Que bom!
- Vai pra casa, menina?
- Sim, está na minha hora... e depois vou pra faculdade...
- Que bom! Estudá faz bem!
- É, eu gosto bastante!
Ela abriu o portão e disse:
- Brigada, fia! Deus lhe abençoe!
Eu respondi “Amém” com uma última e fraca gota de fé. Tentei acreditar em um Deus quieto e excêntrico que olhasse para o mundo e dissesse: “Um dia vocês vão aprender a ser livres”. Talvez nesse dia Ele vibre dizendo que nós conseguimos, quando as pessoas descobrirem que há outras maneiras de governar esse mundo. Então decretos, taxas de juros, mísseis de precisão, lei da oferta e da procura, políticas de preço, Ferraris vermelhas, regimes de previdência, fast-food, salários, Bancos Centrais e produção em larga escala tornem-se só lembranças de como o mundo era esquizofrênico, mesmo que tudo parecesse tão racional.
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