Ele
andava em zigue-zague, mas com passos certeiros, decididos por
impulso. Passou do meu lado, olhou-me de cima abaixo. Sem interromper
minha caminhada, tentei adivinhar, por dois segundos, qual aditivo
circulava naquele sangue. Depois olhei para o outro lado e ergui um
pouco queixo, sempre em frente. Meu antagonista desviou um pouco os passos para
bater diversas vezes nas portas de vidro de uma loja que vendia
roupas femininas exclusivas. Fui ao caixa eletrônico do banco mais
próximo e ele entrou logo atrás. Ficou no caixa ao lado e por
breves momentos brincou euforicamente com as teclas. Demonstrava uma
certa simpatia pelo guarda do banco, até sorria para ele. Enquanto eu observava a cena de
canto de olho, perdia tempo apertando números aleatórios para
redescobrir saldos que já conhecia. Dois minutos depois, ele saiu do
banco e eu saquei o dinheiro.
Atravessei
a rua e fui esperar o ônibus. Várias pessoas já estavam na parada.
Alguns minutos depois o mesmo jovem ressurge e fica encarando as
gurias que estavam por perto. As roupas sujas dele assustam os transeuntes. Ele pergunta em tom alto se o ônibus
para determinado bairro já tinha passado. Quebrei, sem querer, o
silêncio superficial que se formava naquela tarde ao balançar
levemente a cabeça por impulso. Aproxima-se. Ergui mais um
pouco o queixo e não o encarei. O rapaz sentou, um pouco distante, ao
meu lado, quieto e triste. Vencido pela calma. Neste mundo de conflitos que a gente não
escolheu, ser forte não me traz felicidade.