quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Enquanto formos o inferno uns dos outros


Ele andava em zigue-zague, mas com passos certeiros, decididos por impulso. Passou do meu lado, olhou-me de cima abaixo. Sem interromper minha caminhada, tentei adivinhar, por dois segundos, qual aditivo circulava naquele sangue. Depois olhei para o outro lado e ergui um pouco queixo, sempre em frente. Meu antagonista desviou um pouco os passos para bater diversas vezes nas portas de vidro de uma loja que vendia roupas femininas exclusivas. Fui ao caixa eletrônico do banco mais próximo e ele entrou logo atrás. Ficou no caixa ao lado e por breves momentos brincou euforicamente com as teclas. Demonstrava uma certa simpatia pelo guarda do banco, até sorria para ele. Enquanto eu observava a cena de canto de olho, perdia tempo apertando números aleatórios para redescobrir saldos que já conhecia. Dois minutos depois, ele saiu do banco e eu saquei o dinheiro.
Atravessei a rua e fui esperar o ônibus. Várias pessoas já estavam na parada. Alguns minutos depois o mesmo jovem ressurge e fica encarando as gurias que estavam por perto. As roupas sujas dele assustam os transeuntes. Ele pergunta em tom alto se o ônibus para determinado bairro já tinha passado. Quebrei, sem querer, o silêncio superficial que se formava naquela tarde ao balançar levemente a cabeça por impulso. Aproxima-se. Ergui mais um pouco o queixo e não o encarei. O rapaz sentou, um pouco distante, ao meu lado, quieto e triste. Vencido pela calma. Neste mundo de conflitos que a gente não escolheu, ser forte não me traz felicidade.

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