quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Deserto

A Solidão soluça: "Endireitem seus caminhos". Ela na verdade quer que venham a si. Mas o que todo mundo ouviu foi um caniço agitado pelo vento. Ninguém decifrou o ruído.
A Solidão é um caminho único mas ninguém se encontra lá. Uns a buscam porque estão feridos e precisam da dignidade do repouso. Outros nasceram naquela estrada. No final é a mesma armadilha.
Deserto sem escorpiões e outros insetos. Não se come gafanhotos muito menos mel. Mas em todos os desertos morre-se de sede. Balela que se encontra o Pequeno Príncipe por esses pagos. Ali tudo cria rugas.
No final das contas a Solidão não gosta de chuva porque todo o verde vai acabar tão rápido que ela vai pedir por mais. Vai sonhar com o que não existe. Então a sensatez é o pessimismo. O melhor é que Deus sonhe pela Solidão. Que lhe dê o sopro para que morra. E assim, viva.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Manual de instruções do orgulho

Seca minha lágrima, mas não me consola

Não digas bem intencionados clichês

Pois não quero nem a mais gorda esmola

Observas, raciocinas, mas finges que não vês

Que obviedades pululam na tua mente

Mas segues parcas instruções fantasmagóricas

E a mim só resta alguma ironia recente

Não quero a tua piedade genérica

Solidariedade insossa

Me dês a mão e aquiete

Sem perguntas

Levas-me para um passeio

E não te preocupas com meus anseios

Deixe nossas pegadas bem juntas

Tão inocentes

Tão imperfeitas

Buraco Negro

"...havia o silêncio, que mostrou os meus vícios" (Palavrantiga)

É como se eu já tivesse ouvido todas as palavras

É como se eu já tivesse chorado todas as lágrimas

Um buraco sem fundo

E há só há inquietação eterna no fim da queda

Balanço perigosamente - é uma dança, enfim

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Trecho de alguma coisa

"Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo."

Um Sopro de Vida
(Pulsações)
Clarice Lispector

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Diálogos solitários

Travo diálogos interiores
Porque sou muitas
(E nenhuma delas concorda com a outra)

Meninas e mulheres
Que passeiam pela loucura
Algumas delas
Não acharam o caminho de volta

Por que há a maldita perfeição nas coisas imperfeitas?
Tudo único num conjunto em movimento que parece o caos
O Senhor age por sopros sutis
E isso me convence que Ele é justo
Só não sei o que será de mim