Nossos silêncios
sussurram respostas aos espaços de convivência que frequentamos. Mas é muito
difícil distingui-las quando estamos sob a névoa da rotina.
Ai vem o chato que fala dos assuntos tabus e
embaralha tudo. As respostas nas entrelinhas geralmente são:
- Para com isso! Precisamos de
paz e união!
- Para com isso! Precisamos
trabalhar mais e discutir menos!
- Para com isso! Precisamos
respeitar as opiniões dos outros!
Quem percebe o
quanto esse discurso aparentemente democrático anestesia a diversidade? Quem
percebe o quanto esse discurso "fala muito e diz pouco"? Que esse
discurso pacificador tem o potencial de querer mascarar os sintomas das
injustiças gritantes em nossa sociedade? Que o nosso permanente desejo de
sermos aceitos em um grupo não deveria se transformar em demagogia? (Aqui usada
no sentido de ações orientadas com o
objetivo principal de agradar a plateia, podendo fazer uso das maiores
incoerências)...
Respeitar as
opiniões dos outros não significa
deixar de questionar ou criticar os fundamentos
delas, ou seja, a origem dos posicionamentos sobre determinados assuntos. Essa
possibilidade de confronto exige que façamos um autoexame para tentar detectar
as nossas manias de grandeza mais inesperadas. Há que se esperar que, se tudo
correr bem, nosso autocontrole esteja em dia. Para isso, algumas doses diárias
de humildade são sempre um bom remédio, mas o Ministério da Reflexão informa:
subserviência faz mal à saúde.
Em meio aos delírios
causados pelas febres políticas corre-se o risco de embaçar a visão sobre um
dos fatores que perpetuou a existência de famílias, comunidades e sociedades
ativas: a ajuda mútua. Nessa tendência consideraríamos tão mau quem pensa diferente
a ponto de perdermos elos básicos de solidariedade. O ódio não é um mal
exclusivo de uma ideologia. E expor contrariedades, injustiças e pontos de
vista controversos não é necessariamente ódio nem vitimismo. Enquanto ainda
estivermos livres para nos associarmos e desassociarmos com quem bem
entendermos, o exercício da crítica, do questionamento e até a frustração
tornam os motivos de nossas ações mais consistentes. Talvez até mais justos.