domingo, 24 de julho de 2011

Um tom mais brilhante


Pérola descobriu tarde que fora feita para a noite. Não gostava de se entorpecer com a bebida, muito menos de fumar. Mas as companhias boêmias faziam-lhe todo o sentido. As tardes claras e mornas pareciam irreais depois de conversas noturnas intensas. Desenvolvera uma espécie de receio à luz do Sol. Ao mesmo tempo que a fumaça do cigarro dos amigos irritava-lhe a garganta, trazia as lembranças mais interessantes que havia tido até então. O cheiro do tabaco era uma espécie de provocação: no início, um exercício de paciência, depois de sublimação do olfato. Seu espírito poético acabou interpretando o odor que permanecia em seus cabelos após as noites como um sinal de que o êxtase era real, e não um sonho, porque imperfeito. E ela fugia das perfeições desde que descobrira-se protegida da vida por aqueles que mais amava: os avós que a criaram. Vivia sendo constantemente preservada, realizando seus estudos e orações com assiduidade, passeando à tarde nas praças e assistindo a filmes de romance. A fizeram acreditar que havia um momento certo pra tudo. Os avós, percebendo que era introvertida, certa vez falaram com um rapaz tímido, amigo da família, para namorá-la. Antes mesmo do menino se apresentar ela ouviu, meio sem querer, a conversa dos avós atrás da porta e se desagradou. Alguma coisa naquilo a frustrou, mas não sabia o que. Ela falou alto com os avós, pedindo para não fazerem aquilo. Os avós ficaram tristes. No dia seguinte Pérola fez macarrão no almoço e não se falou mais no assunto. Os sorrisos voltaram ao seu fluxo normal por um tempo.
Mas não a pensem (em virtude da mudança) uma rebelde sem causa. A ânsia em esperar pelos sonhos batendo em sua porta ia desvanecendo sua alma em um processo contínuo. Com 26 anos seus amigos da faculdade de Psicologia haviam mudado e os avós a sentiam distante. A avó começou a notar que não realizava mais as suas orações e havia chegado a chorar na frente dela umas três ou quatro vezes por causa disso. Não que ela não cresse, só não sabia mais, e resolveu se aceitar com isso. Recebeu também alguns olhares de reprovação quando começou a voltar para casa depois da meia noite. Certo dia deu um beijo nos avós e disse que, como não queria incomodar, estava de mudança para uma quitinete, porém, viria visitá-los nos fins-de-semana.
Agora Pérola sentia-se nativa das ruas escuras nas voltas para casa. Chamavam-na de careta – e era, de forma convicta. Sentia tristeza ao ver os viciados sob fissura, demonstrando uma alegria tão banhada de desespero. Mas aquele caos e a mistura de cheiros tão contraditórios faziam-na feliz. As almas conhecidas ou desconhecidas que se expunham de surpresa eram seu deleite. Não se sentia mais poupada da vida ajudando bêbados a vomitarem seus excessos da alma e do corpo. Frequentemente ficava sob o êxtase de ter alguns de seus mistérios desvendados, durante longas conversas com amigos, fossem eles passageiros ou velhos conhecidos. Aceitava as lágrimas e as angústias como um presente da vida, para por tudo em movimento. A noite acendeu nela o tom brilhante que já carregava em seu nome.

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