segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ao léu...

Entenda que aquela voz que me fazia querer tudo e ter medo de tudo aquietou. Agora me deixe desbravar o caminho de liberdade que encontrei de repente. Deixe que eu me fira e me cure. Fira-me e cure-me se eu permitir. Deixe-me viver meus êxtases e exautões aos pedaços. Quem sabe construo um mosaico colorido ao fim disso tudo.
 

terça-feira, 17 de maio de 2011

Solidão Blasè

Permita-me não fazer sentido
Aqui quieta no meu canto
E em face a um maior espanto
Não sofra por mim

Eu te olho de soslaio
Querendo tolamente
Que a vida fosse um ensaio
Para saber como agir
Sem que o próximo passo
Impulsione-me a fugir

Deixe-me ser por inteira
Aceite as minhas loucuras
Esqueça minhas amarguras
Não ligue se eu bailar
Sozinha na sala de jantar
É só um rompante

Permita-me ainda
Só por um instante
Quando não me veres mais
Que as palavras que o vento traz
Quando encontra a tua janela
Façam sentido por alguns segundos
Para que então descubras
Que sou eu desejando-te sonhos fecundos

quarta-feira, 30 de março de 2011

O comunista debaixo da cama de Jair Bolsonaro

“- Se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?

- Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja! Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados, e não viveram em um ambiente como lamentavelmente é o teu!”

*caso não saiba o contexto desse 'diálogo' entre Jair Bolsonaro e Preta Gil, clique aqui.


Não, o Excelentíssimo deputado Jair Bolsonaro não fez uma declaração racista. O problema desse aguerrido defensor da moral e dos bons costumes é ter um comunista debaixo da cama na qual dorme. Não é nenhuma insinuação contra a (santa) mulher do deputado. O problema é que a metáfora de Luís Fernando Veríssimo encaixa-se perfeitamente na situação, no que diz respeito ao comportamento desse perfeito exemplo da política brasileira. Além da reputação ilibada, esse herói possui uma perspicácia extraordinária contra intenções maliciosas e sedutoras!

“Tem sempre um comunista debaixo da cama”, diz o reacionário cidadão de bem do conto de Luís Fernando Veríssimo. E não é que o pavoroso vilão também povoa o pesadelo de Bolsonaro? Além de gostar muito de charutos e vestir verde, com o tempo, essa verdadeira entidade se sofisticou: personificou-se em uma cantora que apresenta programas sobre sexo em canal fechado, com o estrito fim de acabar com os valores da tradição, da ordem e da família. E se objetivo da malévola é, conforme sua perspicácia, insinuar uma sedução ao filho – casado - do Excelentíssimo, como ficar quieto? Ela precisa de uma lição! Vai ficar caladinha!

Precisamos, por fim, dar o devido valor ao homem que se proporia a ser executor de penas de morte até de graça, caso tal possibilidade fosse legalizada no Brasil; homem que tem como inspiração personalidades como Geisel, Médici e outras tantas figuras humanitárias.

E lembre sempre de olhar embaixo da cama antes de dormir e prestar atenção nas intenções maliciosas que povoam a mente de artistas libertinas. Nunca se sabe, nunca se sabe...





quinta-feira, 17 de março de 2011

Pas de Bourrée

Sabe o dia no qual tudo que você quer é dançar acompanhada? Nenhuma pirueta compensa. Nenhuma gargalhada provoca êxtase, nem a mais desesperada.

A mente ouve aquela melodia suave propositalmente temperada com testosterona. O peito tem que conter pequenas e doloridas explosões. Os passos da sua coreografia não fazem sentido. Cambaleia e cai. A Ausência é a única a aplaudir a tua performance.


domingo, 28 de novembro de 2010

A Vingança das Palavras


Que o próprio Fernando
Por qualquer um dos seus heterônimos
Nas noites de lua cheia
Deixe insones todos os poetas
Que condenam seus escritos às gavetas

Dorme, dorme, baby
Que a Clarisse vem te pegar
Sem epifania nem estrelas
Porque as palavras sumiram
Bem diante dos teus olhos
Não deves mais vê-las

E o menino em amor solitário
Que deixa sua musa no esquecimento
Deve ser condenado a muitos prazeres
Sufocados pelo medo

Nas esquinas, enquanto tu voltas para casa
Os postes de luz apagarão
E o ectoplasma do Augusto
Vai presentear-te com um grande escarro
Então serás obrigado a olhar
Para a quimera que se esconde
Na escuridão do teu próprio silêncio

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Nota sobre a Zona de Conforto

O agora é a morte das possibilidades. Faço uma escolha e contemplo condoída as outras probabilidades do que poderia ter sido desaparecerem diante dos meus olhos. Busco um refugio insano no futuro, e, como aquele ignorante gato do teorema quântico, torno-me um bizarro exemplo do que pode estar ao mesmo tempo vivo e morto.
Então, sou acordada pelo nem tão suave pulsar do meu sangue nas veias... É tão desconfortável ser demasiadamente humana! Descobrir que em certos momentos você tem que abandonar aquele mundinho tumultuado - mas seguro - que é a sua mente. Mas é só abandonando-o que pode-se dar um significado mais profundo à palavra humanidade. Nosso "eu" é moldado pelas relações com o mundo. Em outro sentido, o sentido do "você" tem existência exclusiva construída e reconstruída em nosso "eu".
E, para não nos perdermos nas aventuras das relações humanas basta - é tão fácil falar - nos deslocarmos do centro do nosso universo, fazendo o exercício de tentar entender o que está pensando e sentindo aquele que nos é (ou está) estranho. Existem dias nebulosos, quando simplesmente estou muito longe de ser coerente com o que defendo aqui. Mas, quando penso nos bons frutos que já colhi, vejo que vale a pena recomeçar.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Todos os sabores

Eu nunca quis ser doce, baby. Não se detenha a primeiras impressões. Tenho tantos sabores estranhos e já disse tantas palavras ácidas... Desculpe se ofendi o seu paladar.

Eu não carrego bandeiras e não busco qualquer status pois tenho fardos suficientes. Tudo pesa, mas só me resta uma pequena cruz sobre o peito. E ela me obriga a pedir perdão mesmo sem saber o porquê.

Não quero parecer distante. Só que certas recusas causam mais dor do que é suportável. E certas palavras t
ornam a vida cinza e até sombria. Então da-me sua mão se for do seu agrado. Ou seja um adversário leal. Eu aprendi que os dois são absolutamente necessários para tornar qualquer ser humano melhor.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Engasgo

Tropeço nas palavras
E não há lucidez que possa amparar a minha queda
Nem silêncio que me faça respirar

Uma cacofônica errante,
Desafinada insistente
Com uma mente caótica
E desesperança poética
Estou fruindo os signos
Esperando a hora
Em que as letras me façam flutuar

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Outsider

E o que está na raiz
do que não pertence?
Liberdade imanente
- Sem olhos para vigiar-te -
Ou solidão trancendente?

Entregue à própria sorte
Está o teu infinito particular,
Há tanto por compartilhar
Tua mente fervilha,
Arruinada em paradisíaca ilha

Arredio a estereótipos
- Um ermitão socrático -
Baila o outsider
Num ritmo cacofônico
Queres ficar anônimo
Ao som de uma idiossincrasia

Engoles a lágrima
Não és barro de só uma estrada
Não finja sentir saudade
És nativo de tolices veladas
E profetizas torpes verdades

Persona non grata, mesmo doce,
Ou estrangeiro íntimo
Sem um olhar cúmplice
Todos são ínfimos

Num insolente paradoxo
Costura-se a rima
Um jeito ortodoxo
De falar de uma sina

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Fardos

Leve-me a algum destino
Longe do lugar-comum

Que o cheiro do ônibus seja poesia
E a estadia seja breve

Leve
Que nenhuma gravidade possa agir sobre mim
Só não quero estar aqui e nem agora

Levo na bagagem duas lágrimas
Guardadas como um troféu bizarro

Venha comigo
Temo o silêncio
Que é má companhia

sábado, 7 de agosto de 2010

Tolices

Deixe o mofo e o escárnio
Chorarem por mim
Pois um mundo secreto
Canta odes ao fim
Enquanto componho um soneto com palavras tolas
Ainda assim, mal chego ao segundo verso
E ébria pelo meu próprio discurso
Espero receber as palavras, pois
Sociedades secretas conspiram
Especialmente ao meu favor
Com duas ou três profecias esdrúxulas
Enquanto muitos se curvam
A um pequeno instante de horror
Mas a ressonância Schulmman
Faz tudo parecer tão breve
Tranquilamente então escreve
Ingenuamente feliz
Até a noite em que sonha
Com a volta do Planeta X

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Palavras Entorpecentes

Sirva-me mais uma dose de ironia
Certas palavras já são suficientemente tóxicas
Assim minha cabeça languidamente se esvazia
E a decadência já me cai bem

Ao pôr-do-Sol, meu riso insano me detém
Envenenemo-nos pois
Com nossas intimidadades pérfidas
E teu humor fugaz
Com minha mente deteriorada
E nossa ausência de paz

*Inspirada em outros humores

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Viagem ao centro do ego

É tudo um louco desejo que afeta meu estômago
Ego incontrolável e resina tóxica que invade minhas veias
É tudo um umbigo querendo ser o centro do mundo
Louca nostalgia de morte

Raiva inverossímil
Quimera microscópica querendo debater-se
São seus últimos suspiros, assim espero

É tudo inconstante e imperfeito
Como se outrora houvesse sido expulsa do Paraíso

Tolice vã que afeta minha sanidade
Uma psiquê risivelmente equilibrada
Os paradigmas são tijolos claustrofóbicos
Mas sem eles tudo é fumaça

Perdida em um labirinto que leva ao centro
Sem acreditar em Teseu ou Minotauro
Pois a escuridão já basta para o desespero

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Deserto

A Solidão soluça: "Endireitem seus caminhos". Ela na verdade quer que venham a si. Mas o que todo mundo ouviu foi um caniço agitado pelo vento. Ninguém decifrou o ruído.
A Solidão é um caminho único mas ninguém se encontra lá. Uns a buscam porque estão feridos e precisam da dignidade do repouso. Outros nasceram naquela estrada. No final é a mesma armadilha.
Deserto sem escorpiões e outros insetos. Não se come gafanhotos muito menos mel. Mas em todos os desertos morre-se de sede. Balela que se encontra o Pequeno Príncipe por esses pagos. Ali tudo cria rugas.
No final das contas a Solidão não gosta de chuva porque todo o verde vai acabar tão rápido que ela vai pedir por mais. Vai sonhar com o que não existe. Então a sensatez é o pessimismo. O melhor é que Deus sonhe pela Solidão. Que lhe dê o sopro para que morra. E assim, viva.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Manual de instruções do orgulho

Seca minha lágrima, mas não me consola

Não digas bem intencionados clichês

Pois não quero nem a mais gorda esmola

Observas, raciocinas, mas finges que não vês

Que obviedades pululam na tua mente

Mas segues parcas instruções fantasmagóricas

E a mim só resta alguma ironia recente

Não quero a tua piedade genérica

Solidariedade insossa

Me dês a mão e aquiete

Sem perguntas

Levas-me para um passeio

E não te preocupas com meus anseios

Deixe nossas pegadas bem juntas

Tão inocentes

Tão imperfeitas

Buraco Negro

"...havia o silêncio, que mostrou os meus vícios" (Palavrantiga)

É como se eu já tivesse ouvido todas as palavras

É como se eu já tivesse chorado todas as lágrimas

Um buraco sem fundo

E há só há inquietação eterna no fim da queda

Balanço perigosamente - é uma dança, enfim

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Trecho de alguma coisa

"Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo."

Um Sopro de Vida
(Pulsações)
Clarice Lispector

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Diálogos solitários

Travo diálogos interiores
Porque sou muitas
(E nenhuma delas concorda com a outra)

Meninas e mulheres
Que passeiam pela loucura
Algumas delas
Não acharam o caminho de volta

Por que há a maldita perfeição nas coisas imperfeitas?
Tudo único num conjunto em movimento que parece o caos
O Senhor age por sopros sutis
E isso me convence que Ele é justo
Só não sei o que será de mim

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Pequeno papel rasgado

Descobri que as pessoas são livros mais facinantes
Com seus defeitos brilhantes
E eu peno em conhecer seus alfabetos

Pequeno papel rasgado
Propício para mandar um recado
Mas não sei o que escrever

A letra causa a morte
A solidão do espírito sem lei angustia
Eu fico com meus rabiscos
Feitos de uma felicidade agonizante
E uma gratidão insólita

09-09-2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ímpeto

O súbito ímpeto que jaz como indigente
A vida em preto e branco
E o andar do gato indecente
Me dão um ar abrasivo
Olhos de pouco caso
Corpo introspectivo

Ligeiras epifanias
Tão mentirosas e instintivas
Falácias e falsas premissas
Fazem você se afastar
E eu fico soturna
Tentando sempre acertar

Súbita inconsciência
Hoje, é sempre última chance
Então contemplo secamente a minha face
Resignada por um dia perdido