domingo, 28 de novembro de 2010

A Vingança das Palavras


Que o próprio Fernando
Por qualquer um dos seus heterônimos
Nas noites de lua cheia
Deixe insones todos os poetas
Que condenam seus escritos às gavetas

Dorme, dorme, baby
Que a Clarisse vem te pegar
Sem epifania nem estrelas
Porque as palavras sumiram
Bem diante dos teus olhos
Não deves mais vê-las

E o menino em amor solitário
Que deixa sua musa no esquecimento
Deve ser condenado a muitos prazeres
Sufocados pelo medo

Nas esquinas, enquanto tu voltas para casa
Os postes de luz apagarão
E o ectoplasma do Augusto
Vai presentear-te com um grande escarro
Então serás obrigado a olhar
Para a quimera que se esconde
Na escuridão do teu próprio silêncio

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Nota sobre a Zona de Conforto

O agora é a morte das possibilidades. Faço uma escolha e contemplo condoída as outras probabilidades do que poderia ter sido desaparecerem diante dos meus olhos. Busco um refugio insano no futuro, e, como aquele ignorante gato do teorema quântico, torno-me um bizarro exemplo do que pode estar ao mesmo tempo vivo e morto.
Então, sou acordada pelo nem tão suave pulsar do meu sangue nas veias... É tão desconfortável ser demasiadamente humana! Descobrir que em certos momentos você tem que abandonar aquele mundinho tumultuado - mas seguro - que é a sua mente. Mas é só abandonando-o que pode-se dar um significado mais profundo à palavra humanidade. Nosso "eu" é moldado pelas relações com o mundo. Em outro sentido, o sentido do "você" tem existência exclusiva construída e reconstruída em nosso "eu".
E, para não nos perdermos nas aventuras das relações humanas basta - é tão fácil falar - nos deslocarmos do centro do nosso universo, fazendo o exercício de tentar entender o que está pensando e sentindo aquele que nos é (ou está) estranho. Existem dias nebulosos, quando simplesmente estou muito longe de ser coerente com o que defendo aqui. Mas, quando penso nos bons frutos que já colhi, vejo que vale a pena recomeçar.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Todos os sabores

Eu nunca quis ser doce, baby. Não se detenha a primeiras impressões. Tenho tantos sabores estranhos e já disse tantas palavras ácidas... Desculpe se ofendi o seu paladar.

Eu não carrego bandeiras e não busco qualquer status pois tenho fardos suficientes. Tudo pesa, mas só me resta uma pequena cruz sobre o peito. E ela me obriga a pedir perdão mesmo sem saber o porquê.

Não quero parecer distante. Só que certas recusas causam mais dor do que é suportável. E certas palavras t
ornam a vida cinza e até sombria. Então da-me sua mão se for do seu agrado. Ou seja um adversário leal. Eu aprendi que os dois são absolutamente necessários para tornar qualquer ser humano melhor.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Engasgo

Tropeço nas palavras
E não há lucidez que possa amparar a minha queda
Nem silêncio que me faça respirar

Uma cacofônica errante,
Desafinada insistente
Com uma mente caótica
E desesperança poética
Estou fruindo os signos
Esperando a hora
Em que as letras me façam flutuar

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Outsider

E o que está na raiz
do que não pertence?
Liberdade imanente
- Sem olhos para vigiar-te -
Ou solidão trancendente?

Entregue à própria sorte
Está o teu infinito particular,
Há tanto por compartilhar
Tua mente fervilha,
Arruinada em paradisíaca ilha

Arredio a estereótipos
- Um ermitão socrático -
Baila o outsider
Num ritmo cacofônico
Queres ficar anônimo
Ao som de uma idiossincrasia

Engoles a lágrima
Não és barro de só uma estrada
Não finja sentir saudade
És nativo de tolices veladas
E profetizas torpes verdades

Persona non grata, mesmo doce,
Ou estrangeiro íntimo
Sem um olhar cúmplice
Todos são ínfimos

Num insolente paradoxo
Costura-se a rima
Um jeito ortodoxo
De falar de uma sina

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Fardos

Leve-me a algum destino
Longe do lugar-comum

Que o cheiro do ônibus seja poesia
E a estadia seja breve

Leve
Que nenhuma gravidade possa agir sobre mim
Só não quero estar aqui e nem agora

Levo na bagagem duas lágrimas
Guardadas como um troféu bizarro

Venha comigo
Temo o silêncio
Que é má companhia

sábado, 7 de agosto de 2010

Tolices

Deixe o mofo e o escárnio
Chorarem por mim
Pois um mundo secreto
Canta odes ao fim
Enquanto componho um soneto com palavras tolas
Ainda assim, mal chego ao segundo verso
E ébria pelo meu próprio discurso
Espero receber as palavras, pois
Sociedades secretas conspiram
Especialmente ao meu favor
Com duas ou três profecias esdrúxulas
Enquanto muitos se curvam
A um pequeno instante de horror
Mas a ressonância Schulmman
Faz tudo parecer tão breve
Tranquilamente então escreve
Ingenuamente feliz
Até a noite em que sonha
Com a volta do Planeta X

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Palavras Entorpecentes

Sirva-me mais uma dose de ironia
Certas palavras já são suficientemente tóxicas
Assim minha cabeça languidamente se esvazia
E a decadência já me cai bem

Ao pôr-do-Sol, meu riso insano me detém
Envenenemo-nos pois
Com nossas intimidadades pérfidas
E teu humor fugaz
Com minha mente deteriorada
E nossa ausência de paz

*Inspirada em outros humores

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Viagem ao centro do ego

É tudo um louco desejo que afeta meu estômago
Ego incontrolável e resina tóxica que invade minhas veias
É tudo um umbigo querendo ser o centro do mundo
Louca nostalgia de morte

Raiva inverossímil
Quimera microscópica querendo debater-se
São seus últimos suspiros, assim espero

É tudo inconstante e imperfeito
Como se outrora houvesse sido expulsa do Paraíso

Tolice vã que afeta minha sanidade
Uma psiquê risivelmente equilibrada
Os paradigmas são tijolos claustrofóbicos
Mas sem eles tudo é fumaça

Perdida em um labirinto que leva ao centro
Sem acreditar em Teseu ou Minotauro
Pois a escuridão já basta para o desespero

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Deserto

A Solidão soluça: "Endireitem seus caminhos". Ela na verdade quer que venham a si. Mas o que todo mundo ouviu foi um caniço agitado pelo vento. Ninguém decifrou o ruído.
A Solidão é um caminho único mas ninguém se encontra lá. Uns a buscam porque estão feridos e precisam da dignidade do repouso. Outros nasceram naquela estrada. No final é a mesma armadilha.
Deserto sem escorpiões e outros insetos. Não se come gafanhotos muito menos mel. Mas em todos os desertos morre-se de sede. Balela que se encontra o Pequeno Príncipe por esses pagos. Ali tudo cria rugas.
No final das contas a Solidão não gosta de chuva porque todo o verde vai acabar tão rápido que ela vai pedir por mais. Vai sonhar com o que não existe. Então a sensatez é o pessimismo. O melhor é que Deus sonhe pela Solidão. Que lhe dê o sopro para que morra. E assim, viva.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Manual de instruções do orgulho

Seca minha lágrima, mas não me consola

Não digas bem intencionados clichês

Pois não quero nem a mais gorda esmola

Observas, raciocinas, mas finges que não vês

Que obviedades pululam na tua mente

Mas segues parcas instruções fantasmagóricas

E a mim só resta alguma ironia recente

Não quero a tua piedade genérica

Solidariedade insossa

Me dês a mão e aquiete

Sem perguntas

Levas-me para um passeio

E não te preocupas com meus anseios

Deixe nossas pegadas bem juntas

Tão inocentes

Tão imperfeitas

Buraco Negro

"...havia o silêncio, que mostrou os meus vícios" (Palavrantiga)

É como se eu já tivesse ouvido todas as palavras

É como se eu já tivesse chorado todas as lágrimas

Um buraco sem fundo

E há só há inquietação eterna no fim da queda

Balanço perigosamente - é uma dança, enfim

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Trecho de alguma coisa

"Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo."

Um Sopro de Vida
(Pulsações)
Clarice Lispector

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Diálogos solitários

Travo diálogos interiores
Porque sou muitas
(E nenhuma delas concorda com a outra)

Meninas e mulheres
Que passeiam pela loucura
Algumas delas
Não acharam o caminho de volta

Por que há a maldita perfeição nas coisas imperfeitas?
Tudo único num conjunto em movimento que parece o caos
O Senhor age por sopros sutis
E isso me convence que Ele é justo
Só não sei o que será de mim

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Pequeno papel rasgado

Descobri que as pessoas são livros mais facinantes
Com seus defeitos brilhantes
E eu peno em conhecer seus alfabetos

Pequeno papel rasgado
Propício para mandar um recado
Mas não sei o que escrever

A letra causa a morte
A solidão do espírito sem lei angustia
Eu fico com meus rabiscos
Feitos de uma felicidade agonizante
E uma gratidão insólita

09-09-2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ímpeto

O súbito ímpeto que jaz como indigente
A vida em preto e branco
E o andar do gato indecente
Me dão um ar abrasivo
Olhos de pouco caso
Corpo introspectivo

Ligeiras epifanias
Tão mentirosas e instintivas
Falácias e falsas premissas
Fazem você se afastar
E eu fico soturna
Tentando sempre acertar

Súbita inconsciência
Hoje, é sempre última chance
Então contemplo secamente a minha face
Resignada por um dia perdido

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Árvore da vida


E correndo de ilusão em ilusão

Escapo da Verdade

Porque a glória

É só um bater de coração


A melhor mentira está pertinho

Me dando náuseas


E a realidade escapa entre meus dedos

Ampulheta magnífica do meu envelhecer

Estranhas palavras tão familiares

Que fazem o tempo rolar em segredo


As letras se transformam em grãos de areia

Sem nenhum sentido


Duas meninas brincam

Eu e a Verdade

Entre sorrisos e corridas

Entre silêncios e feridas

Antes que eu caia em um sono eterno

terça-feira, 24 de junho de 2008

Parassimpático poético

Relata sutil o olho que brilha
Que dilata, do sujeito, a pupila
Mesmo longe, é tudo poesia vivaz

O pêlo daquele corpo arrepia
E martela em mim a nostalgia

Memória corpórea que traz
Evidências que desfaleço
Morna, amarga e sem viço

Parassimpático poético
Síntese do sono eterno
E meu conforto maléfico

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A favor das incertezas

Gosto do querer subjacente
Vem para a beira da razão,
Mas meu miserável corpo mente
Meu miserável corpo é prisão.

Faço uma aliança pernóstica
Para me ver sobre outra ótica,
E, após (mesquinhas) cismas
Descubro entre rimas
Que sou eu quem me saboto.
Por medo de ser destoante,
Não quero dar o passo adiante.
O mundo gira e eu nem noto.

É tudo tão simples? Estou fora?
Para os certinhos, uma estranha.
Para os maconheiros, uma senhora.
Deixo livre quem me quer bem:
É assim o enredo da história.
Em verdade, ninguém é refém,
A não ser da afeição.
Sensato é quem sabe
Que não está com a razão.

E nas dúvidas, não temo
Passar por becos fétidos.
Com certezas me enveneno
E tombo, sobriamente louca
Em fantasmas esquecidos.
São faces torpes de mim mesma,
Que dormem em qualquer canto,
Que desabam em qualquer cisma.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

As palavras de uma lágrima

Não sou parte de nada
Um reflexo na água
Vã acaso da lucidez
Uma toca escura
E só vejo fantasmas

Não tenho pouso nem casa
Não tenho armas nem espinhos
Não construi

Sem rota, sem rumo
Pelo que vale a pena morrer?
O destino será mesmo não pertencer?

Meus caminhos são percalços
Rotas fugitivas de emergência
Discórdia interior
Ante a Omniciência

Cansei de perder
Cansei de notar
Detalhes tristes
Não tenho paz