segunda-feira, 16 de maio de 2016

A demagogia e o pacifismo em tempos de febres políticas

Nossos silêncios sussurram respostas aos espaços de convivência que frequentamos. Mas é muito difícil distingui-las quando estamos sob a névoa da rotina.
 Ai vem o chato que fala dos assuntos tabus e embaralha tudo. As respostas nas entrelinhas geralmente são:
- Para com isso! Precisamos de paz e união!
- Para com isso! Precisamos trabalhar mais e discutir menos!
- Para com isso! Precisamos respeitar as opiniões dos outros!
Quem percebe o quanto esse discurso aparentemente democrático anestesia a diversidade? Quem percebe o quanto esse discurso "fala muito e diz pouco"? Que esse discurso pacificador tem o potencial de querer mascarar os sintomas das injustiças gritantes em nossa sociedade? Que o nosso permanente desejo de sermos aceitos em um grupo não deveria se transformar em demagogia? (Aqui usada no sentido  de ações orientadas com o objetivo principal de agradar a plateia, podendo fazer uso das maiores incoerências)...
Respeitar as opiniões dos outros não significa deixar de questionar ou criticar os fundamentos delas, ou seja, a origem dos posicionamentos sobre determinados assuntos. Essa possibilidade de confronto exige que façamos um autoexame para tentar detectar as nossas manias de grandeza mais inesperadas. Há que se esperar que, se tudo correr bem, nosso autocontrole esteja em dia. Para isso, algumas doses diárias de humildade são sempre um bom remédio, mas o Ministério da Reflexão informa: subserviência faz mal à saúde.

Em meio aos delírios causados pelas febres políticas corre-se o risco de embaçar a visão sobre um dos fatores que perpetuou a existência de famílias, comunidades e sociedades ativas: a ajuda mútua. Nessa tendência consideraríamos tão mau quem pensa diferente a ponto de perdermos elos básicos de solidariedade. O ódio não é um mal exclusivo de uma ideologia. E expor contrariedades, injustiças e pontos de vista controversos não é necessariamente ódio nem vitimismo. Enquanto ainda estivermos livres para nos associarmos e desassociarmos com quem bem entendermos, o exercício da crítica, do questionamento e até a frustração tornam os motivos de nossas ações mais consistentes. Talvez até mais justos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Enquanto formos o inferno uns dos outros


Ele andava em zigue-zague, mas com passos certeiros, decididos por impulso. Passou do meu lado, olhou-me de cima abaixo. Sem interromper minha caminhada, tentei adivinhar, por dois segundos, qual aditivo circulava naquele sangue. Depois olhei para o outro lado e ergui um pouco queixo, sempre em frente. Meu antagonista desviou um pouco os passos para bater diversas vezes nas portas de vidro de uma loja que vendia roupas femininas exclusivas. Fui ao caixa eletrônico do banco mais próximo e ele entrou logo atrás. Ficou no caixa ao lado e por breves momentos brincou euforicamente com as teclas. Demonstrava uma certa simpatia pelo guarda do banco, até sorria para ele. Enquanto eu observava a cena de canto de olho, perdia tempo apertando números aleatórios para redescobrir saldos que já conhecia. Dois minutos depois, ele saiu do banco e eu saquei o dinheiro.
Atravessei a rua e fui esperar o ônibus. Várias pessoas já estavam na parada. Alguns minutos depois o mesmo jovem ressurge e fica encarando as gurias que estavam por perto. As roupas sujas dele assustam os transeuntes. Ele pergunta em tom alto se o ônibus para determinado bairro já tinha passado. Quebrei, sem querer, o silêncio superficial que se formava naquela tarde ao balançar levemente a cabeça por impulso. Aproxima-se. Ergui mais um pouco o queixo e não o encarei. O rapaz sentou, um pouco distante, ao meu lado, quieto e triste. Vencido pela calma. Neste mundo de conflitos que a gente não escolheu, ser forte não me traz felicidade.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Sobre o orgulho feminino e a necessidade de certos desconfortos

[Editado em 21-01-16]

Eu cresci aprendendo que deveria contestar quando me sentisse injustiçada, que poderia gritar e sair correndo para defender-me de qualquer opressão. Principalmente dos sujeitinhos metidos a machões. Isso me salvou de traumas tenebrosos. Tentei exercitar, sempre que tinha consciência da situação, essa autodefesa. Tais mecanismos se naturalizaram em mim.

Mas tinha presente, com constância, que fui esculpida e esculpi-me frágil: lenta demais, prendada de menos, displicente com a enganosa ordem natural das coisas, desatenta com os ritmos dominantes, insuficientemente cuidadosa com o corpo (e de acordo com os olhos mais amorosos). Compreendi que havia uma espécie de escala invisível e indizível das virtudes femininas e nessa escala eu tinha ficado para trás. O contexto piorava pois, quanto mais eu tentava ganhar “pontos de virtude”, mais mal-estar isso causava-me, sem que eu entendesse profundamente o porquê.

No início lentamente, algumas leituras realizadas e situações na qual me colocava tornaram possível uma mudança de perspectivas: a necessidade de apagar o modelo de comportamento e de corpo que a convivência com os outros desenhou em minha mente. E de construir um novo objetivo que me trouxesse satisfação genuína, usando, sempre que preciso, uma borracha imaginária depois que me sentisse marcada por olhares intrusos.

Esse processo passou pela positivação da minha identidade como uma das identidades possíveis e até, em parte, desejáveis, na diversidade que está por trás do que é ser mulher. E também pela resistência – sempre que possível – ativa a todo tipo de comportamento opressor. Disso decorre uma característica não menos importante dessa transformação: o corte ponderado e contínuo de tudo que reforçasse minhas fragilidades.

Aprendi a amar minhas idiossincrasias e desconfiar de favores cavalheirescos. Com isso, surgiram novas atitudes. Uma das coisas mais bobas que faz com que eu me sinta empoderada é carregar peso, quando é possível (mesmo que, vez ou outra, custe uma dor nos ombros). Procuro bagunçar as aparentes divisões de gênero: assumir minha parte nos gastos financeiros; abrir, para mim mesma, a porta do carro ao sair (como carona); andar sozinha à noite – com as devidas precauções; fazer questão de tentar me defender autonomamente de grosserias, mesmo diante de homens protetores. Procuro dispensar o cavalheirismo tradicional (e ter consciência dos meus privilégios de classe média bem escolarizada, que possibilitam algumas dessas práticas) para que não se tornem hábitos e me acomodem.

Eu sei que minhas descrições podem ser consideradas só uma fagulha da grande e bela chama  que é o feminismo. Das grandes transformações estruturais que ele suscita. O que não sei se seria realmente construtivo para o movimento que eu me considerasse uma representante dele: comparativamente, pouco li de seus cânones, tenho insegurança se minha formação é adequada, se vou deturpá-lo. Talvez fique um pouco feliz além do que deveria quando percebo um homem desconstruindo o próprio machismo (e pelas meninas que tiveram pais presentes e que não lhes sufocam o empoderamento). Tenho que aprofundar minhas práticas de sororidade (apesar de há tempos não ter tolerância a xingamentos machistas ou lesbofóbicos dirigidos a outras, por maiores que tenham sido ou até venham a ser as divergências com algumas mulheres). 

Feminista, pró-feminista ou qualquer outra classificação que possa ser adequada aos meus posicionamentos, parto do pressuposto da profunda gratidão para com aquelas primeiras loucas anônimas que começaram a gritar com os machos sobre seus desejos de estudar, trabalhar, gozar, gargalhar, protagonizar e desobedecer. E foi através desse percurso que a vida de suas descendentes ficou lentamente menos dolorida, mais livre e feliz. E é esse legado que quero perpetuar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Barricadas

Eu não desabo mais por qualquer cisma
Esculpi em mim finas barricadas
Trançadas de roseiras negras
Por essas tramas só passam
O que o mundo acha torto
Mas tem verdade e riso

Não é no clichê que minha alma se encanta
Eu quero a beleza do olhar que brilha
Depois de ter se partido em pedaços
Eu quero a hesitação mais humana
Sentida num quarto solitário e ansioso
Eu quero a lágrima guardada
E até piada sem graça

As euforias mais insanas
Doces confidências
Os percalços deixam
Tudo mais interessante

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Intervalo no caos

As nossas armaduras se parecem
Duas almas que pesam em desilusões
Mas mesmo depois que a noite cesse
Nossos encontros epiléticos
Garantem sorrisos fortuitos
Baixamos um pouco a guarda
De todo esse caos
E eu tenho um intervalo de paz
Em meio a esse universo fugaz

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Melancolia

O corpo enverga ante à solidão
Fragmentos de sorrisos se esvaem
Enquanto há vida e pulsar
Tão longe!

Não há caminhos de pedra
Que apontem para estradas azuis

Uma vida cheia de traçados pontiagudos
E desenhos insólitos
Cheios de detalhes microscópicos
Que complexificam tudo
Nada é suficientemente
Interessante
Para aplacar
Um paladar
Tão complicado

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Das poesias esquecidas nos lábios de alguém

(Foto: Autor Desconhecido)
As noites daquela estranha mulher não eram mais tecidas por lamúrias infindáveis. A solidão definia com mais clareza o belo do que tem nuances superficiais e ocas. Tolice evitar sentir saudades! Tentar anestesiá-la com futilidades que nada preenchem é digno de escracho.
Quando a gente está em movimento é que as dores diminuem! E a memória se encarrega de colorir só a beleza, se você quiser. A vida é eterna ilusão de simetria.
Bicho arisco, percebeu aos poucos que não havia sido talhada pra esse mundo da sedução. Ainda assim, ela queria a poesia compartilhada entre os corpos. Deitar ao lado de quem se confia qualquer toque, sentindo-se em um intervalo no caos da vida. As pernas entrelaçadas e os sorrisos furtivos. Sem jogos, nem tiranias.
Ela queria reviver as poesias esquecidas nos lábios de alguém (que sabiamente disse-lhe haver dado muito pouco), nem que fosse com outro rosto. Novas migalhas, tão deliciosas quanto as primeiras.
Era melhor descrer nos transbordamentos dos toques e abraços. Não queria que seus tesouros parecessem misérias tolas.

(12 de Fevereiro de 2013 e 27 de Maio de 2013)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Restos

O viajante frui ilusões
E, como pobre poeta que é, em vão diz
Há beleza aqui como há por todo o lugar
Mas eu grito vazios rudes em sonhos
E, por hora, só tenho esperanças trôpegas

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pequeno exercício de indefinição

Sou um bicho arisco. Arredia e idiossincrática. Dificilmente satisfeita, às vezes obsessivamente analítica. Facilmente rendida a aventuras e sorrisos lindos, nem que seja preciso uma persistência praticamente inoxidável para arrancá-los. Dizem que meu olhar é doce, mas não me preocupo em ser boazinha. Eu desejo mesmo é tentar contribuir para dar algum sentido coerente e bonito à palavra humanidade.

domingo, 21 de outubro de 2012

Um tom de ironia

Era estranho ela não saber se tinha ido longe demais ou dado passos muito curtos. Se devia ter mudado mais ou ido com mais calma. A vertigem de uma vida sem nortes, como uma bússola louca que nunca para. Árida ironia que a poeira da estrada escondia nas entrelinhas.
Era madrugada e ela estava em um hotel de uma cidade desconhecida. O dinheiro acabando. Longe de tudo e de todos. Ou será que não? Alguns dos pequenos mistérios que cercavam sua vida poderiam fazer com que tropeçasse em coisas familiares sem ao menos notar, ou talvez notar tarde demais.
Um vazio tomou conta dela ao olhar a estrada iluminada pelas luzes da madrugada. Uma estranha sensação que tornava os lamentos inúteis e os motivos pra ser feliz mais fáceis.


domingo, 30 de setembro de 2012

Latências

A rotina é uma quimera
Que me engoliu
Num quarto claustrofóbico
De uma cidade asfixiante

E quem fui é um espectro
Conotação ilusória
De sorrisos fortuitos

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um poema para os desencantos contra os quais ainda teimo

Ando assim meio cativa
Das intropecções profundas
Sem querer o mundo passa ao largo
O desencanto é meu clichê
Purgatório particular
Frio e oco

E tento ficar a salvo
De sentimentos complexos
Abraços rasos e fortuitos
Mas sempre foi vã a busca
Para que o sorriso esqueça
Que a vida -  na inércia -
Do sono sem sonhos
É só ilusão

Só que por hora ando leve
Como quem ainda se atreve
A sorrir assim de lado
Mas a alma é líquida
E as dúvidas
São pequenos pedregulhos
Esculpidos por correntezas

Através de caminhos tortos o tempo flui


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Rotas complicadas


Eu nem sempre vou 
Pelos caminhos que quero
Aqueles que fazem
O peito arder

Deixo o instante falar
Mas ele tem a consistência 
De uma bolha-de-sabão
Translúcida e sem direção

Incontestavelmente
Eu prefiro as rotas complicadas
Labirintos que escondem 
Sorrisos alucinógenos
E por breves instantes que se reiteram
Parece, de novo e de novo
Que só a mais terna loucura faz sentido

domingo, 15 de julho de 2012

Labirinto

Eu não estaria assim tão errada
Se estivesse absurdamente apaixonada
Mas nesse percurso em corda bamba
É preciso estrangular os instintos
Porque, depois, como sair do labirinto?

domingo, 8 de julho de 2012

Deméter

Eu tenho um mundinho cor-de-rosa pra te oferecer
Na ponta da minha língua
Um mundo de falas insossas e geladas
Paisagens pálidas
Conto de fadas bizarro e oco

Como se nunca tivesse provado da sombria romã
Explosão de cores
Com a qual tanto me deliciei
Insanamente feliz com minha insuficiência
Eu escolhi ser dúbia e oblíqua
Um jogo de sombras
Para escapar
Da tua proteção asfixiante
Gosto de medo
Inferno eterno
Deixas o mundo tão feio

Desejo brincar com o perigo
E eu só quero abrigo
Se for sem perguntas
Inventa-te contente para mim, sim?




domingo, 17 de junho de 2012

Das poesias por hora impossíveis

Na solidão noturna ela se permitia pensar no quanto achava cruel o mundo da sedução. Não queria muito. Nenhum tipo de salvação nos braços de alguém. Mas às vezes ela se perguntava se tudo não passava de um jogo de poder. E isso sempre a assustou. Mesmo que tivesse armas para ganhar (e não eram muitas), sabia que não iria querer usá-las, por medo de acabar gostando de pequenas tiranias. 
Ela queria poesia sem poder. A poesia das pernas entrelaçadas por alguns momentos. Dos cheiros e dos sons. Dos belos acordes descobertos sem querer. Das coisas simples. De se inventar feliz, para poder criar uma nova pessoa dos cacos do passado. E se fosse insanidade da parte dela? Pretensão? Ilusão?
O pior de tudo era saber que não teria resposta: só ouvir o silêncio e o vazio de seus pensamentos.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Confianças

Creio que se pode diferenciar dois tipos de confiança nas relações humanas. As duas podem estar presentes em diferentes graus, mas em muitos momentos são distinguíveis. Uma é típicas das crianças: a crença naquilo que te proporciona uma sensação de abrigo e proteção, que ultrapassa ou escapa de um racionalização, pelo menos em algumas de suas bases ou no mais importante. É a confiança que se detém nas nossas próprias lacunas de sentimentos, pensamentos e no encantamento pelo outro. Perigosamente recheada de excesso de expectativas e impressões superficiais.
Outro tipo de confiança é aquela que se estabelece (ou pode se estabelecer) com o processo de experiência de vida enquanto caminho de maturidade, como um compartilhamento entre duas pessoas. Podem ser objetivos, afetos, ideiais e pontos de vista. É uma confiança que se estabelece em um grau razoável de racionalizações e comunhão de sentimentos. Nem que seja um momento ocasional e passageiro. Geralmente, a confiança é baseada em uma certa previsibilidade, mas ela deve se deter a isso? Bom, volta e meia, ela escapa a essas estruturas: quebram-se as malditas expectativas. Isso pode ajudar a criar decepções, nervosismo, frustração, paranóia, desconfiança. E esse é o fruto de relações que sobrevivem no imediatismo, na falta de olhar de novo para a situação, de enxergar além da imagem e das primeras sensações.
E então, você resolve tentar uma confiança baseada na liberdade, na continua negociação, no ouvir constante, em não ter medo das transformações e rever continuamente os próprios conceitos sobre o mundo. Em saber que o ser humano está sempre em construção e do processo de crescimento restam incoerência, fraquezas, falhas. Em ter que lidar constantemente com coisas que teu olho não pode captar. No fato de que as pessoas podem tomar atitudes com as quais tu não concordas, e mesmo assim continuar compartilhando coisas muito bonitas contigo. Na percepção de que um afeto profundo aceita o outro como o mistério e a incompletude que ele é e que ele está; e se o outro quiser mudar pensando em nós, é algo que deve ser digerido pela consciência e pelo aprendizado dele e não pela nossa constante cobrança, expectativa ou intolerância. De qualquer modo há uma constante necessidade de saltos no escuro.
Sem nenhuma dessas confianças sendo praticada, as coisas não florescem. A vida é murcha e pesada. Quando essa confiança se desfaz, dói. E se a confiança madura não existe, melhor seria voltar a ser criança, apegar-se a algum deus bondoso e onipotente, ou então viver anestesiando a consciência até que o tempo se encarregue de tornar isso um automatismo. Para florescer, para fazer valer, é preciso ver beleza verdadeira nas coisas, e saber compartilhá-la, tanto quanto possível, com proximidade, brilho e calor.

sábado, 26 de maio de 2012

Estados antipoéticos

Hoje estou pedregulho
Dura e incômoda superfície
Restos espalhados de orgulho
Últimas energias
Gastas em ironias
São resistências
Pedaços partidos
De sapiência

Lembrança do medo
Que consome a leveza
Infla pequenas
E torpes penúrias
Esconde os sorrisos
E torna perigo
O que era pra ser
Um grande prazer

Um passado etéreo
Insiste em se manter
E nisso não há mistério
Permanece esse cheiro eterno
De tristeza
E julgamento
Por todo o ar
Vibra o caos
E mortificada
Por bizarro espetáculo
Sou mineral
Sem lágrima e sal
E, abaixo de muitas camadas
Suspiro exasperada
Sedenta daquela poesia
Da pura fruição dos sentidos
Ah, menina!
De peito aberto
Tudo que olhas
É tão mais terno
E toda implicância
Um vão inferno
Mas qualquer tortura dói mais
Inesperado adeus à paz
E o silêncio jaz
No indizível

Um triste vácuo
De sentidos
Inércia do simbólico
E dos meus sorrisos

sábado, 12 de maio de 2012

Impermanências


Do outro lado do espelho
Dá pra ver
Que toda ilusão solitária
Tem muito de desespero

Não queiras ir às alturas
Como se a vida
Só precisasse de asas
E a euforia bastasse
Como boa companhia

E se não há verdade
Compartilha tuas loucuras
Faz da tua miragem
Um lugar feliz
Dança, tropeça e chora
Frua toda beleza e toda dor
Antes que o deserto reapareça
E a vida escape entre os teus dedos

sábado, 7 de abril de 2012

Fome

É da falta que renasce o desejo
Fome de delícias
Insaciadas por entre os dedos

E a alma impertinente
Busca a iguaria
Desliza a língua
Tão ternamente
Em doce uva
Morde de leve
Os mais ternos sabores
Prepara então uma bebida quente
E em cuidadosos movimentos
Acalma a sede
Tranquiliza a mente
Breves momentos
Derramam êxtase
És um banquete

Resta-me a espera
Aumenta a falta
Segue o apetite