sábado, 7 de abril de 2012

Fome

É da falta que renasce o desejo
Fome de delícias
Insaciadas por entre os dedos

E a alma impertinente
Busca a iguaria
Desliza a língua
Tão ternamente
Em doce uva
Morde de leve
Os mais ternos sabores
Prepara então uma bebida quente
E em cuidadosos movimentos
Acalma a sede
Tranquiliza a mente
Breves momentos
Derramam êxtase
És um banquete

Resta-me a espera
Aumenta a falta
Segue o apetite

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Breves inquietações sobre o que governa o mundo

“Os decretos do ministro da Economia se referem aos tipos de câmbio, ao regime impositivo, à política de preços? Porque não mencionam nunca coisas como a vida e a morte e o destino? É mais sábio o que decifra as linhas da mão ou o que saber ler o que dizem, sem dizer, esses decretos?” (Eduardo Galeano)

Eu olhava a janela de todas as casas enquanto caminhava. Procurava as que estivessem abertas e parecessem amistosas. Surpreendi-me com o olhar da senhora baixinha de cabelos grisalhos e compridos.

- Boa tarde! Tá vendendo alguma coisa, moça? – sorriu, enquanto abria um velho portão de madeira da casa.

- Boa tarde! Não, eu tô trabalhando com questionários sobre programas sociais.

Apresentei-me e expliquei detalhes. Em alguns minutos consegui apagar o medo dela de ser mais uma aposentada a sofrer algum golpe financeiro. Tenho que ponderar que o olhar de entusiasmo da senhora cedeu um pouco, mas a gentileza ficou intocada. Ela aceitou receber-me e começou a falar sobre de que maneira o que ela e a filha que morava com ela ganhavam só dava pra pagar a comida, o dízimo e, com muito custo, os remédios que não conseguia no posto. Em retribuição à atenção que recebia, olhei para a senhora como se não tivesse ouvido a mesma história centenas de vezes, ao mesmo tempo em que começava a subir degraus íngremes de paralelepípedos toscamente lapidados.

- Eu achei que você tivesse vendendo CD’s, fia! – disse rindo a senhora, enquanto se esforçava para subir até a própria casa.

Ri, sem entender, dizendo baixo:

- Nãoooo...

- Sabe, fia, que tem uns CD’s maravilhosos falando de Jesus? Eu só não fui no culto hoje porque ninguém veio me buscá. Deus tem me abençoado muito ultimamente.

E como naquele dia eu estava sedenta pela gentileza e pela humildade que encontrava naquela senhora, saiu um tímido “Amém” a essa e a todas as outras esperanças que ela me confessava ter.

- Tem que lê a Bíblia tooodos dia! Se as pessoa lesse a Bíblia, o mundo não tava assim.

Eu balancei a cabeça positivamente, e lancei para ela um sorriso adocicado pela culpa de não estar sendo sincera com quem me tratava tão bem. Não ergui meus olhos. Lembrei que estava em algum lugar da minha estante o livro grosso de papel frágil, com uma proteção cinza de couro. Ele já não me dizia as mesmas coisas, mas um pedaço das minhas angústias de adolescente estava guardado no fecho lateral dele sobre a forma de papéis amarelados cobertos de letras pontudas.

No final dos degraus avistei, na varanda do casebre, no alto da colina, a filha da senhora, que, antes de me ver, estava concentrada em terminar uma peça de tricô. A angústia não saia do olhar daquela mulher madura nem quando ela sorria. Eu olhei para aquele ambiente simples. Tinha um pedaço de nostalgia como quando eu estava em férias num certo sítio aos oito ou nove anos: às vezes ia espiar e assustar de leve os bichos do galinheiro da vó para achar graça no dia.

Depois de sentar e me apresentar à filha da senhora, comecei a entrevista. As minhas perguntas sobre as condições de vida daquelas duas mulheres suscitava respostas familiares. Eu não me lembro de um trabalhador de fábrica que conheci resistir a mais de quinze anos de rotina sem arrebentar as costas, as pernas ou a capacidade do cérebro produzir uma quantidade satisfatória de serotonina. Ou torrar os neurônios e o humor para pagar o aluguel. Vive-se para esmagar as vértebras e dissolver as angústias em soníferos quando tudo dá errado.

Depois das perguntas sobre as condições de vida delas, as últimas questões diziam respeito aos programas sociais. As duas começaram a falar sobre o quanto a vida havia melhorado nos últimos tempos. Era só preencher alguns quadrinhos, marcar uma dúzia de “xis” e eu havia terminado meu dever.

- Sabe, fia, que eu tô orando muito para que o Lula fique curado do câncer! Ele é um homê muito bom! Lá na igreja a gente ora, aqui em casa a gente ora...

- Ele fez bem pra tanta gente! – disse a filha.

- É, ele fez bem pra muita gente. Tirô muita gente da fome. E tu vê, o Collor, que só fez mal, continua lá! Como pode?

- O Collor desgraçô a vida de muita gente.

- Ele fez muito mal pra minha fia. Aquele homê vai pro inferno.

Eu pensei que alguns ateus orariam fervorosamente para que Deus existisse e o desejo daquela senhora se realizasse.

- Por causa dele, a fábrica onde eu trabalhava quebrô. Os dono sumiram tudo no dia seguinte. Não tinha emprego em lugar nenhum e eu comecei a passá fome. Eu tive que dá as minhas duas filha pra minha irmã pra elas poderem comê, depois ela não queria me devolve as menina, nós brigamo e eu não falo com ela até hoje. Aquele homê desgraçô a vida de muita gente!

Depois de ouvir a filha, a senhora dirigiu o olhar para mim e perguntou:

- Por que esse homê que fez mal pra tanta gente continua lá, fia? Por que ele tá no governo? Como o Lula aceitava uma coisa dessa, fia?

Por que as coisas foram feitas de maneira que uma pessoa pode ter poder sobre o destino de milhões? Pensei nas teorias sociais e políticas que havia estudado; que para manter o poder era preciso fazer concessões. Pensei na análise dos comentaristas políticos que havia lido. Também nas minhas utopias. Nas minhas crenças sobre a natureza humana, tão complexa, incoerente e ambígua.

Mas quem era eu pra tentar arranhar o alívio que as orações, os calmantes e Deus proporcionavam em certas horas da vida daquela senhora? E se tentasse só dizer algumas palavras simples sobre o assunto, quais eu poderia usar? Ainda havia em mim uma leve lembrança de que o mundo era mais seguro quando colocava-se a cabeça no travesseiro e dormia-se com a crença de que havia seres humanos completamente bons.

Só saiu um “Pois é...” como resposta.

Como estava no final do meu expediente, eu mudei de assunto explicando pela última vez que direitos as duas poderiam ter, de acordo com salário que ganhavam. Recomendei que procurassem ajuda caso passassem necessidades muito sérias. As duas ficaram agradecidas.

A senhora grisalha acompanhou meu trajeto de descida até o portão de madeira. A filha retornou a atenção para o tricô.

- Sabe, Deus sempre tem nos ajudado!

- Que bom!

- Vai pra casa, menina?

- Sim, está na minha hora... e depois vou pra faculdade...

- Que bom! Estudá faz bem!

- É, eu gosto bastante!

Ela abriu o portão e disse:

- Brigada, fia! Deus lhe abençoe!

Eu respondi “Amém” com uma última e fraca gota de fé. Tentei acreditar em um Deus quieto e excêntrico que olhasse para o mundo e dissesse: “Um dia vocês vão aprender a ser livres”. Talvez nesse dia Ele vibre dizendo que nós conseguimos, quando as pessoas descobrirem que há outras maneiras de governar esse mundo. Então decretos, taxas de juros, mísseis de precisão, lei da oferta e da procura, políticas de preço, Ferraris vermelhas, regimes de previdência, fast-food, salários, Bancos Centrais e produção em larga escala tornem-se só lembranças de como o mundo era esquizofrênico, mesmo que tudo parecesse tão racional.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Desarmonia

A beleza escapou entre seus dedos
Como se fosse uma borboleta claustrofóbica
Semeadora de tempestades
Caos silencioso
Tudo vazio e torto

A simetria do outro é sempre melhor
E não há um ombro para descansar
A alma se apaga
No fim, a poesia é só uma alucinação

Tropeça na pirueta
Sozinha na sala
Seus passos sem sincronia

Faz versos sobre a ausência
Abstraindo ruídos e lágrimas
E suspira, esperando pelo universo em harmonia

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Flaneurs

Sou cativada pelos passeios noturnos
Povoados de sorrisos furtivos e ventos refrescantes

Nenhuma placa ou sinal nos limita
E nossos pés doloridos nos fazem livres
Pelo menos por esta noite

Tenho saudade dos passeios noturnos
Até de quando procurei desesperadamente
As palavras certas esquecidas no meio-fio das calçadas

Fica tudo mais simples quando o Sol não ilumina os corpos
Tudo vira harmonia quando a iluminação artificial
Capta o brilho dos olhares
Até as sombras tornarem tudo um mistério

Eu poderia viver para as noites sem teto
Até os mosquitos seriam sinfonia aos ouvidos
E mesmo umas poucas horas de sono
Já arrancariam um sorriso pela manhã

Digo-lhes, pois, que é antes do nascer do Sol
Que se esconde a arte de ficar contente
Com os contornos mais verdadeiros da vida

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Constelações

Nativa do entardecer
Aculturada pelas manhãs
Das burocracias neuronais
E introspecções astrais

Notívaga em espera
Por sorrisos na Lua cheia
E um suspiro à espreita
No escuro do quarto

É tudo feito de estrelas
Longínquo e brilhante
E o silêncio
Não me adormece

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Insaciável

Vontade de mudar, de novo. De sair desse sossego cansativo que empoeira a alma. Mostrar ao mundo que mudei pra que, de uma vez, pare de ser rotina convencer a mim mesma que não foi tudo miragem.
Vontade de olhar no espelho e ver outra imagem. De olhar no espelho e não ter medo que a velha imagem volte. Que os velhos medos sintam saudade, batam na porta e queiram voltar mais uma vez.
Vontade de que o rosto diga tudo que a alma quer gargalhar e até chorar. Que o corpo não volte a ser uma mera formalidade incômoda. E a mente não seja refúgio.
Vontade de hipnotizar sorrindo, mesmo que tudo desmorone como um castelo de cartas (afinal a sedução é um jogo no qual o segredo é descobrir quais são as regras).
Vontade de inflamar mentes, mesmo que seja projeção. De voar livre, mesmo que o céu seja eterna promessa. Vontade de abrir o peito até para tomar tapas da vida.
Vontade de fitar outros olhos com tranquilidade, da fala sair despreocupada e sonora, dos pés voltarem a inventar o próprio chão.

sábado, 5 de novembro de 2011

Cigana Budista

Acordaram aquelas vontades
De cigana budista
De respirar o deleite
Sem o peso da posse

Numa idiossincrasia selvagem
Vagueio em desertos escaldantes
Assombrada por rostos encantados

Desassossegos santos
E o meu suspiro é encontro
Com os sorissos desinteressados
E as inquietudes das mentes consumidas
Por procuras insanas
Caravanas de vida
Pra dividir as lágrimas
E acompanhar as danças

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ouço aquela voz que diz baixinho para eu ser fiel aos meus quereres. “Viva a tua verdade!”. Mas há também os gritos de praticidades necessárias – carregadas do mesmo lirismo comedido que tirou a paciência de Bandeira - a um som estridente, contínuo e pouco melodioso, às vezes ininteligível.
Se eu pudesse viver só de belezas – daquelas que dão a mesma sensação de respirar o vento gelado depois de um dia cansativo -, ainda que fossem momentos roubados, o mundo jamais me pesaria e todos os movimentos seriam muito mais fáceis. Em homenagem a quem já partiu, quero fruir o mundo só mais um pouco, sem ligar para o que é 'possível'. Fazer de conta que ainda posso, que ainda me permito. Fazer de conta que meu peito vai ficar estufado depois de só restar mais um não ecoando no silêncio. E se a vida me der um tapa na cara, ainda valerá a pena sorrir.

sábado, 20 de agosto de 2011

Substantivos Abstratos


O Universo conspira para que eu ria
Mesmo em meio à melancolia
Dilui passionalidades inconstantes
Na beleza de surpreendentes instantes

Destino, dá-me a chance
De pensar que tenho alma
E encontrar de relance
A honestidade e a calma
Deixa-me honrar as palavras
Substantivos abstratos
Com feitos concretos
Transbordando brilhos
E predicados

domingo, 24 de julho de 2011

Um tom mais brilhante


Pérola descobriu tarde que fora feita para a noite. Não gostava de se entorpecer com a bebida, muito menos de fumar. Mas as companhias boêmias faziam-lhe todo o sentido. As tardes claras e mornas pareciam irreais depois de conversas noturnas intensas. Desenvolvera uma espécie de receio à luz do Sol. Ao mesmo tempo que a fumaça do cigarro dos amigos irritava-lhe a garganta, trazia as lembranças mais interessantes que havia tido até então. O cheiro do tabaco era uma espécie de provocação: no início, um exercício de paciência, depois de sublimação do olfato. Seu espírito poético acabou interpretando o odor que permanecia em seus cabelos após as noites como um sinal de que o êxtase era real, e não um sonho, porque imperfeito. E ela fugia das perfeições desde que descobrira-se protegida da vida por aqueles que mais amava: os avós que a criaram. Vivia sendo constantemente preservada, realizando seus estudos e orações com assiduidade, passeando à tarde nas praças e assistindo a filmes de romance. A fizeram acreditar que havia um momento certo pra tudo. Os avós, percebendo que era introvertida, certa vez falaram com um rapaz tímido, amigo da família, para namorá-la. Antes mesmo do menino se apresentar ela ouviu, meio sem querer, a conversa dos avós atrás da porta e se desagradou. Alguma coisa naquilo a frustrou, mas não sabia o que. Ela falou alto com os avós, pedindo para não fazerem aquilo. Os avós ficaram tristes. No dia seguinte Pérola fez macarrão no almoço e não se falou mais no assunto. Os sorrisos voltaram ao seu fluxo normal por um tempo.
Mas não a pensem (em virtude da mudança) uma rebelde sem causa. A ânsia em esperar pelos sonhos batendo em sua porta ia desvanecendo sua alma em um processo contínuo. Com 26 anos seus amigos da faculdade de Psicologia haviam mudado e os avós a sentiam distante. A avó começou a notar que não realizava mais as suas orações e havia chegado a chorar na frente dela umas três ou quatro vezes por causa disso. Não que ela não cresse, só não sabia mais, e resolveu se aceitar com isso. Recebeu também alguns olhares de reprovação quando começou a voltar para casa depois da meia noite. Certo dia deu um beijo nos avós e disse que, como não queria incomodar, estava de mudança para uma quitinete, porém, viria visitá-los nos fins-de-semana.
Agora Pérola sentia-se nativa das ruas escuras nas voltas para casa. Chamavam-na de careta – e era, de forma convicta. Sentia tristeza ao ver os viciados sob fissura, demonstrando uma alegria tão banhada de desespero. Mas aquele caos e a mistura de cheiros tão contraditórios faziam-na feliz. As almas conhecidas ou desconhecidas que se expunham de surpresa eram seu deleite. Não se sentia mais poupada da vida ajudando bêbados a vomitarem seus excessos da alma e do corpo. Frequentemente ficava sob o êxtase de ter alguns de seus mistérios desvendados, durante longas conversas com amigos, fossem eles passageiros ou velhos conhecidos. Aceitava as lágrimas e as angústias como um presente da vida, para por tudo em movimento. A noite acendeu nela o tom brilhante que já carregava em seu nome.

Um tom mais leve

Ela nunca foi perdoada. Nenhuma palavra fora dita sobre o assunto, mas a cena estava ali, clara. As outras a olhavam querendo parecer desdenhosas, mas na verdade estavam sob constante assombro quando a figura dela vinha em suas retinas. Duas eram até mais novas do que ela, porém as rugas - que todas já tinham – só impunham respeito à feição das quatro mulheres sentadas na varanda de uma casa do interior.
Ela vinha por uma estrada de chão que subia até a casinha afastada de tudo. As poucas árvores do caminho mal atrapalhavam quem queria observar o andar dela. Os cabelos da mulher caiam propositadamente de um coque feito com um grampo de madeira especialmente trabalhada. Alguns fios brancos, que a tintura castanha não cobria, davam um indício que ela já passava dos 45 anos. Usava um jeans daqueles comprados em qualquer loja de departamento: presente de Natal distraído que ela aceitara com muito gosto. Uma camiseta lilás colava-lhe no corpo. E só. Isso bastava-lhe. Seu andar parecia indiferente ao fato daquilo ser uma estrada de chão, cheia de pedregulhos.
Ela chegou em casa. Nunca fez questão de ser toda sorrisos. Olhou para as quatro mulheres da mesma maneira que sempre havia olhado.
- Comprei a farinha e a alface que vocês pediram, mas os tomates estavam quase todos com manchas. E não haviam prendedores de madeira. Comprei os de plástico.
- Procurou direito?
- Sim.
Há tempos ela não esperava mais respostas nos olhares das outras. Entrou em casa, guardou as compras, pegou os fones de ouvido. Escutou seu rock durante toda a tarde daquele sábado, a não ser na hora de ajudar a preparar o almoço e o jantar ao lado das outras quatro. Só arriscava imitar o baterista quando estava sozinha no quarto. Não se arrependeu de não ter aprendido a tocar esse instrumento. Essa molecagem com as mãos parecia um jeito de conservar a infância.
Faltando sete minutos para as oito da noite, ela recebeu uma ligação. As outras intuíram do que se tratava, mas só tiveram certeza quando a viram em seu vestido preto. Usava uma maquiagem leve, brincos que imitavam brilhante, as unhas pintadas de pérola.
Ela nunca foi perdoada por aquele brilho que mantinha constantemente na pupila e por todo o seu esforço para mantê-lo. Era lei daquele mundinho que mulheres tinham que desvanecer. Um indício de moral. Ninguém deveria dar um tom mais leve na palidez delas. Nos sábados aquilo ficava tão evidente, que as outras só conseguiam dar tchau.

sábado, 16 de julho de 2011

Dialética da Vida

Não me deixe ser inocente, meu bem
As santas nunca sorriem no altar
Conheça minha mente a se reorganizar
Pois desacostumei a ser mera refém
De medos e circunstâncias
Agora, valorizo minhas andanças
Erros e acertos como um novo conhecimento
Em meio à loucura desse movimento
Do sangue que corre nas veias
Às lágrimas alheias
E minhas angústias

A minha síntese 
Está fora do teu escopo
Além do teu moralismo louco
Vou formando novas teses
Na pirueta infinita
Dialética da vida
Eu tropeço em alguns passos

Agora eu não espero mais
Bebo às agruras da liberdade
Em uma taça quebrada
Esquecendo das "verdades"
Absolutizadas e engarrafadas 
Só me deixe guardar a minha
A mais pura e ébria poesia
Em meio a uma lucidez tímida
De momentos clandestinos

(17-06 e 16-07-2011)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ao léu...

Entenda que aquela voz que me fazia querer tudo e ter medo de tudo aquietou. Agora me deixe desbravar o caminho de liberdade que encontrei de repente. Deixe que eu me fira e me cure. Fira-me e cure-me se eu permitir. Deixe-me viver meus êxtases e exautões aos pedaços. Quem sabe construo um mosaico colorido ao fim disso tudo.
 

terça-feira, 17 de maio de 2011

Solidão Blasè

Permita-me não fazer sentido
Aqui quieta no meu canto
E em face a um maior espanto
Não sofra por mim

Eu te olho de soslaio
Querendo tolamente
Que a vida fosse um ensaio
Para saber como agir
Sem que o próximo passo
Impulsione-me a fugir

Deixe-me ser por inteira
Aceite as minhas loucuras
Esqueça minhas amarguras
Não ligue se eu bailar
Sozinha na sala de jantar
É só um rompante

Permita-me ainda
Só por um instante
Quando não me veres mais
Que as palavras que o vento traz
Quando encontra a tua janela
Façam sentido por alguns segundos
Para que então descubras
Que sou eu desejando-te sonhos fecundos

quarta-feira, 30 de março de 2011

O comunista debaixo da cama de Jair Bolsonaro

“- Se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?

- Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja! Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados, e não viveram em um ambiente como lamentavelmente é o teu!”

*caso não saiba o contexto desse 'diálogo' entre Jair Bolsonaro e Preta Gil, clique aqui.


Não, o Excelentíssimo deputado Jair Bolsonaro não fez uma declaração racista. O problema desse aguerrido defensor da moral e dos bons costumes é ter um comunista debaixo da cama na qual dorme. Não é nenhuma insinuação contra a (santa) mulher do deputado. O problema é que a metáfora de Luís Fernando Veríssimo encaixa-se perfeitamente na situação, no que diz respeito ao comportamento desse perfeito exemplo da política brasileira. Além da reputação ilibada, esse herói possui uma perspicácia extraordinária contra intenções maliciosas e sedutoras!

“Tem sempre um comunista debaixo da cama”, diz o reacionário cidadão de bem do conto de Luís Fernando Veríssimo. E não é que o pavoroso vilão também povoa o pesadelo de Bolsonaro? Além de gostar muito de charutos e vestir verde, com o tempo, essa verdadeira entidade se sofisticou: personificou-se em uma cantora que apresenta programas sobre sexo em canal fechado, com o estrito fim de acabar com os valores da tradição, da ordem e da família. E se objetivo da malévola é, conforme sua perspicácia, insinuar uma sedução ao filho – casado - do Excelentíssimo, como ficar quieto? Ela precisa de uma lição! Vai ficar caladinha!

Precisamos, por fim, dar o devido valor ao homem que se proporia a ser executor de penas de morte até de graça, caso tal possibilidade fosse legalizada no Brasil; homem que tem como inspiração personalidades como Geisel, Médici e outras tantas figuras humanitárias.

E lembre sempre de olhar embaixo da cama antes de dormir e prestar atenção nas intenções maliciosas que povoam a mente de artistas libertinas. Nunca se sabe, nunca se sabe...





quinta-feira, 17 de março de 2011

Pas de Bourrée

Sabe o dia no qual tudo que você quer é dançar acompanhada? Nenhuma pirueta compensa. Nenhuma gargalhada provoca êxtase, nem a mais desesperada.

A mente ouve aquela melodia suave propositalmente temperada com testosterona. O peito tem que conter pequenas e doloridas explosões. Os passos da sua coreografia não fazem sentido. Cambaleia e cai. A Ausência é a única a aplaudir a tua performance.


domingo, 28 de novembro de 2010

A Vingança das Palavras


Que o próprio Fernando
Por qualquer um dos seus heterônimos
Nas noites de lua cheia
Deixe insones todos os poetas
Que condenam seus escritos às gavetas

Dorme, dorme, baby
Que a Clarisse vem te pegar
Sem epifania nem estrelas
Porque as palavras sumiram
Bem diante dos teus olhos
Não deves mais vê-las

E o menino em amor solitário
Que deixa sua musa no esquecimento
Deve ser condenado a muitos prazeres
Sufocados pelo medo

Nas esquinas, enquanto tu voltas para casa
Os postes de luz apagarão
E o ectoplasma do Augusto
Vai presentear-te com um grande escarro
Então serás obrigado a olhar
Para a quimera que se esconde
Na escuridão do teu próprio silêncio

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Nota sobre a Zona de Conforto

O agora é a morte das possibilidades. Faço uma escolha e contemplo condoída as outras probabilidades do que poderia ter sido desaparecerem diante dos meus olhos. Busco um refugio insano no futuro, e, como aquele ignorante gato do teorema quântico, torno-me um bizarro exemplo do que pode estar ao mesmo tempo vivo e morto.
Então, sou acordada pelo nem tão suave pulsar do meu sangue nas veias... É tão desconfortável ser demasiadamente humana! Descobrir que em certos momentos você tem que abandonar aquele mundinho tumultuado - mas seguro - que é a sua mente. Mas é só abandonando-o que pode-se dar um significado mais profundo à palavra humanidade. Nosso "eu" é moldado pelas relações com o mundo. Em outro sentido, o sentido do "você" tem existência exclusiva construída e reconstruída em nosso "eu".
E, para não nos perdermos nas aventuras das relações humanas basta - é tão fácil falar - nos deslocarmos do centro do nosso universo, fazendo o exercício de tentar entender o que está pensando e sentindo aquele que nos é (ou está) estranho. Existem dias nebulosos, quando simplesmente estou muito longe de ser coerente com o que defendo aqui. Mas, quando penso nos bons frutos que já colhi, vejo que vale a pena recomeçar.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Todos os sabores

Eu nunca quis ser doce, baby. Não se detenha a primeiras impressões. Tenho tantos sabores estranhos e já disse tantas palavras ácidas... Desculpe se ofendi o seu paladar.

Eu não carrego bandeiras e não busco qualquer status pois tenho fardos suficientes. Tudo pesa, mas só me resta uma pequena cruz sobre o peito. E ela me obriga a pedir perdão mesmo sem saber o porquê.

Não quero parecer distante. Só que certas recusas causam mais dor do que é suportável. E certas palavras t
ornam a vida cinza e até sombria. Então da-me sua mão se for do seu agrado. Ou seja um adversário leal. Eu aprendi que os dois são absolutamente necessários para tornar qualquer ser humano melhor.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Engasgo

Tropeço nas palavras
E não há lucidez que possa amparar a minha queda
Nem silêncio que me faça respirar

Uma cacofônica errante,
Desafinada insistente
Com uma mente caótica
E desesperança poética
Estou fruindo os signos
Esperando a hora
Em que as letras me façam flutuar